A Casa Branca e o Congresso americano discutem a redução do déficit fiscal como moeda de troca para a elevação do teto de endividamento público. Sem a ampliação do teto, e sob a pressão da opinião pública, o governo provavelmente teria de suspender os pagamentos de juros e amortizações da dívida pública para manter despesas com aposentadorias, salários de funcionalismo, segurodesemprego e gastos semelhantes. Um frio percorreu a espinha dos credores. “Medo de calote leva a China a pedir responsabilidade aos Estados Unidos”, estampava a primeira página do “GLOBO” na última sexta-feira. “O maior credor de títulos dos EUA, com quase um terço dos papéis emitidos pelo Tesouro americano, cobra políticas mais responsáveis para garantir os interesses dos investidores”, prosseguia a reportagem.

Por outro lado, “pela visão americana, há uma prática de manipulação cambial favorecendo as companhias chinesas e, em consequência, prejudicando os interesses das empresas americanas operando nas mesmas indústrias”, adverte o experiente Henry Kissinger, em “On China” (2011). “A desvalorização artificial do yuan pode destruir empregos na América, assunto delicado em uma época de incipiente austeridade. Mas, para os chineses, o favorecimento de suas indústrias domésticas pela manipulação cambial não é propriamente uma política econômica, e sim uma absoluta necessidade para a estabilidade política interna. Explicando a uma audiência americana em setembro de 2010 por que a China não permitiria uma drástica valorização de sua moeda, o primeiro-ministro Wen Jiabao respondeu: ‘Vocês não imaginam quantas empresas chinesas estariam quebradas. Haveria enormes distúrbios sociais’”, registra Kissinger.

Resumo da ópera: os americanos querem continuar se endividando, mas seus financiadores, os chineses, se queixam desse endividamento excessivo. Por outro lado, os chineses continuam comprando títulos americanos para desvalorizar artificialmente sua moeda, alegando a necessidade política de criar empregos domésticos. E os americanos reclamam dessa manipulação cambial, pela qual os chineses roubam seus empregos. Recriminações recíprocas de cúmplices notórios. O banco central americano derruba os juros e desvaloriza o dólar para exportar sua crise recessiva. O banco central chinês sustenta sua cotação contra o yuan, passando o problema adiante e destruindo empregos em todo o mundo.

Fonte: O Globo, 18/07/2011

RELACIONADOS

Deixe um comentário