Encontro um motorista com fórmulas para tudo. Com o alucinado entusiasmo dos que ficam somente nas ideias, pois sabem que elas não correm o menor risco de serem aplicadas, ele me fala de uma receita infalível e simplérrima para acabar com o crime de morte e até mesmo com as guerras: fabricar armas com senha.

Diante do meu espanto, o gênio se explica: a arma só dispara quando o seu legítimo dono tecla a senha. Compreende? Coisa muito simples. Um acordo internacional faria com que todas as armas tivessem uma senha e que o seu dono fosse o seu único conhecedor.

Convenhamos que isso não é muito diferente da ideia de eliminar mijões com banheiros químicos ou de acabar com a violência da torcida de futebol, dando carteirinha de torcedor para os frequentadores dos estádios, como sugere o nosso ilustre ministro dos Esportes dentro do modelo burocrático-estalinista que faz parte do DNA da esquerda brasileira.

Se ficha na polícia – ou seja, se ser dono de uma “carteirinha de bandido” fosse solução, já teríamos acabado com a violência e mudado o perfil do Congresso Nacional.

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Depois de dar quatro horas de aula, entro na barca para Niterói, onde sinto saudade do meu pai. A memória do motorista inventor me lembra o tio da mulher de um amigo que havia descoberto a fórmula do “picolé-quente”, um sorvete que jamais derretia. Sou, então, inevitavelmente conduzido para a teoria segundo a qual somos todos loucos.

Uns mais, outros menos. Mas não há quem escape desse brutal desequilíbrio que se instala quando nascemos e vai crescendo na medida que nos tornamos mais e mais “humanos”. O extraordinário filme de Stanley Kubrick, “2001, uma odisséia no espaço”, endossa essa tese, mostrando como os préhumanos fizeram a passagem da natureza para a cultura enlouquecidos pelo monólito perfeitamente geométrico, inteiramente negro, que promovia uma descontinuidade absoluta na paisagem até então contínua do mundo.

Leslie A. White foi um antropólogo americano que intrepidamente combinou evolucionismo com a descoberta de que somos construídos por símbolos, na melhor estirpe dos românticos alemães como Ernst Cassirer.

Escreveu um belo e culto livro sobre “A Evolução da Cultura” e pretendia que o termo “culturologia” substituísse os estudos etnológicos. Teve como aluno célebre, entre outros, Marshall Sahlins e, no Brasil, seu lado evolucionista foi seguido por Darcy Ribeiro. Diferenciava-se do “materialismo cultural” inventado por outro americano, Marvin Harris, que esteve no Brasil e estudou uma pequena cidade em Minas Gerais, porque recusava qualquer reducionismo tendo uma noção clara da autonomia e da arbitrariedade dos símbolos. “Mesa” ou “table” não têm nada a ver com o objeto que designam. Quando Leslie White ouvia alguém citar estudos sobre macacos como modelo para o comportamento humano, ele dizia: selecione o mais inteligente e bem treinado chimpanzé conhecido e tente ensinar a ele a distinção entre água benta e água destilada…

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O rosto vermelho e os cabelos juvenilmente empinados não combinavam com o talho amargo da boca, adornada por lábios finos. O nome húngaro era de impossível pronúncia para meus ouvidos treinados para os sons neolatinos, quando a ele fui apresentado por meu mentor e amigo Victor Turner numa reunião que discutia rituais e teatro em Nova York. Era um antropólogo que havia criado uma nova teoria sobre a “origem do homem”. Falava dela com aquela energia fora do comum, típica dos gênios que descobrem coisas inusitadas.

Ele sabia como os pré-humanos – os hominídeos – transformaramse em humanos, pois tinha descoberto a longa e tortuosa (ou talvez inexistente) ponte entre a animalidade, com sua ênfase na reprodução exagerada e múltipla, e a humanidade com sua reprodução comedida e individualizada.

Homens e animais – disse ele sem respirar e num surpreendente rasgo de fé – opunham-se aos anjos que comungavam da divindade, mas não se reproduziam. Em seguida, veio a teoria no seu estado puro. A humanidade nasceu num relâmpago de loucura: num surto simbólico. O animalzinho que se protegia subindo em árvores para defender-se dos possantes carnívoros que infestavam a savana africana, descobriu um alucinógeno e o tomou.

Viu mil figuras coloridas e viveu a experiência da segmentação entre consciência e corpo. Aí jazia a explicação para essa dominação do arbitrário cultural que inventava significados sobre pré-mapas biológicos que, até então, tentavam determinar o comportamento do pequeno monstro pré-humano.

Ao tomar a bebida que enlouquecia, o animal desceu da árvore, contrariou a lógica da autopreservação, inventou um novo sistema de vida por meio de instrumentos externos ao seu próprio corpo e redesenhou as cartas biológicas na forma de intrincadas receitas culturais. Dos Dez Mandamentos às constituições; das regras gramaticais ao mercado auto-regulável; da culinária aos modos mais civilizados de matar. Tudo destinado à desobediência, ao arrependimento, ao desentendimento, ao fracasso e a um estado perene de loucura. Foi a primeira crise mundial.

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