A falência do Estado em todos os níveis

Ontem, 7 e pouco da manhã, no telejornal “Bom Dia São Paulo”, mais uma reportagem do absurdo, sobre as incontáveis mazelas dos serviços públicos federal, estaduais e municipais no Brasil.

Tratava-se de um novo pronto atendimento (PA), muito bem instalado no andar térreo de um hospital público da periferia, pronto para funcionar… há oito meses! – desde setembro do ano passado. No andar de cima, a multidão se acotovela espalhada por corredores e salinhas, esperando horas por atendimento num calor danado. Detalhe: em setembro do ano passado o governador de São Paulo visitou o belo PA e prometeu que em 40 dias o público se serviria dele.

Rodrigo Bocardi, apresentador do programa, chama à cena o secretário de Saúde do governo do Estado e pergunta por que o PA maravilha até hoje não funciona. Na tentativa de aproveitar a chance e fazer propaganda de uma política, que estaria em curso, de alegada elevação da dignidade no atendimento à saúde, o secretário apenas se enrola. O apresentador cobra: então, quando teremos dignidade naquele PA? O secretário titubeia, mas se compromete: em 90 dias.

Lembrando que Alckmin já prometera 40 dias, e oito meses se passaram, o apresentador se despede dizendo que em 90 dias uma equipe da TV Globo lá estará para a cobrança.

Usei a reportagem para dizer que o poder público no Brasil está literalmente falido, em todos os níveis. Federal, estatuais e municipais. Não tem recursos nem para cumprir as tarefas do dia a dia. Mas promete mundos e fundos. As demandas da população param nas filas dos serviços públicos, que podem ser vistas em todos os telejornais, ouvidas em todas as rádios, lidas em todos os jornais e revistas.

Em qualquer momento aparecem os engravatados e acuados burocratas tentando explicar por que os planos não se cumpriram, os projetos fracassaram, as inaugurações foram adiadas, mas garantindo que providências urgentes estão sendo tomadas para recuperar os atrasos e entregar as benfeitorias prometidas pelos cartolas que governam este país. Falam como técnicos de futebol: “Estamos envidando o melhor dos nossos esforços para não deixar a população na mão”. A população – perdão – está cada vez mais “na mão”. Ou, se quiserem, na mão de Deus.

La nave va, diriam Fellini e os eternos resignados. Ma va molto male, dirá o leitor atento do noticiário. E certamente é o que diz o povão, os brasileiros das ruas, os pais de família indignados com o atraso na entrega dos uniformes das crianças nas escolas e creches, com a falta de professores e de vagas, com a depredação das instalações por vândalos juvenis, com a presença de malfeitores e traficantes nos sagrados recintos do ensino. Va molto male, dirá o usuário do ônibus, dando graças a Deus porque o assaltante que entrou levou apenas carteiras e telefones celulares, e não a vida de alguns.

Ma si, sarà davvero male, dirá o taxista ou qualquer cidadão na direção de um carro no semáforo, ante o trezoitão do pivete na sua cara. O que também ocorrerá ao dono da pequena lanchonete do bairro ou do mercadinho. Non è possibile, pensará o trabalhador ao ler que aposentados do serviço público ou políticos profissionais ganham superaposentadorias de R$ 30 mil, R$ 40 mil, R$ 50 mil, R$ 70 mil, enquanto ele tem de trabalhar dobrado para complementar o seu salário mínimo ou seu caraminguá do INSS quando se aposentar.

É tudo resultado da falência financeira do poder público. Falta de dinheiro dos impostos? Nada. Excesso de inépcia nos gastos, nos desperdícios, na incúria e, principalmente, na corrupção criminosa de políticos de alta e de baixa envergadura. Mas o falido governo deste país pensa que se salva com o cheque de US$ 50 bilhões que os chineses entregarão à sra. Miriam Belchior. Ilusão. Precisamos de mil vezes mais que isso. Não para fazer um país novo. Apenas para tentar consertar o velho.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 21/5/2015

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