Falta coordenação

A crise na Europa segue no foco dos investidores. Temores em relação a um calote de dívida na Grécia e em outros países dos PIIGS, seguem ameaçando os investidores que, cautelosamente, se refugiam nos títulos públicos norte-americanos e asiáticos, no ouro e no dólar. Por aqui no Brasil, a preocupação maior é conseguir um “balanceamento” entre expansão da demanda e comportamento da inflação, em perigosa trajetória de alta. Vejamos a seguir, o que é destaque no Brasil e no mundo.

Coordenação na Europa.
O que mais chama a atenção nesta crise é a total falta de coordenação entre os 16 países membros da zona do euro. Na semana passada, boa parte das oscilações ocorridas nos mercados de ativos derivou deste desencontro de informações, ora com a chanceler alemã Ângela Merkel, argumentando que o euro estava sob risco, ora com o primeiro-ministro francês, Nicolas Sarkozy, ameaçando sair do bloco. O problema aqui é que quando tudo estava dando certo todos eram adeptos da zona do euro, com os novos países do Leste Europeu bem- vindo. Depois, quando a zona do euro começou a “fazer água”, críticas começaram a surgir de todos os lugares, colocando em risco a sobrevivência da moeda.

Como vem sendo comentando neste espaço, chama atenção a eficácia dos pacotes fiscais austeros, todos determinando consideráveis ajustes em prazos relativamente curtos. Ao que parece, o mercado não parece muito crente destas metas. O problema é que com estes mega ajustes, as economias da Europa acabarão mergulhando num processo recessivo, o que resgata a idéia de um “double deep”, com a economia da região tendo se recuperado na passagem do ano passado para este, impulsionada pelos estímulos fiscais, mas agora mergulhando numa forte retração derivada dos ajustes provocados pela deterioração fiscal, aprofundada por estes estímulos. Confuso não? Em 2009, a União Europeia mergulhou 4% e neste ano não deve crescer mais de 1%. A Grécia, por exemplo, deve despencar 4%. Na verdade, a zona do euro está imersa num “trouble deep”. Como resolvê-lo? Apenas com muita coordenação entre os principais países. Coordenação esta que houve no surgimento da zona do euro, mas que está faltando agora na sua pior crise.

Situação fiscal. A Fazenda, visando amortecer o possível aperto monetário do BACEN, já anunciou um corte, ou contingenciamento de despesas, no total de R$ 28 bilhões neste ano. O problema é que a economia segue muito aquecida, com estimativas de PIB crescente entre 5,5% e 6,5%, com alguns até prevendo 7%, e a inflação voltando a ameaçar. O IGP-M, no segundo decêndio de maio, registrou 0,95% e o IGP-10 1,11%, ambos, com grande impacto dos reajustes de minério de ferro, o que elevou sobremaneira os IPAs e o item Matérias-Primas Brutas.

No caso do IGPM, o IPA passou de 0,38% para 1,19%, com as Matérias-Primas Brutas aumentando de -0,44% para 3,92% e o Minério de Ferro, de -1,06% para 27,16%. Para o ano, ambos os índices da FGV devem registrar alta acima de 8%.

No que se refere ao índice oficial de inflação do governo, o IPCA, a prévia de maio veio acima do esperado, com 0,63%, avançando frente a abril (0,57%). Alimentação se manteve com viés de alta, mesmo que recuando um pouco (1,7% para 1%), com destaque para alimentos in natura, devido aos fatores climáticos, e Vestuários, Energia Elétrica e Saúde se mantiveram pressionados, o primeiro pelo lançamento da “moda outono inverno”, o segundo, pelo ciclo de reajustes anuais e o último pelos reajustes de remédios. Outro impacto veio do grupo Habitação, absorvendo o reajuste de condomínios e o fim da deflação da energia elétrica. Com isto, o IPCA “cheio” de maio deve vir em torno de 0,65% e ao fim deste ano chegar a 5,7%.

Dívida Bruta Federal. Embora a dívida líquida se mostre “sob controle”, preocupa a dívida bruta do setor público, importante parâmetro para as agências de rating na avaliação do nível de solvência do País. Como, recentemente, ela deu uma acelerada, em função das operações entre Tesouro e BNDES para injetar recursos no sistema financeiro brasileiro, preocupa sua trajetória.

Pelos dados mais recentes do BACEN, a dívida bruta do setor público (governo federal, previdência social, estados e municípios) somou R$ 1,94 trilhão em março (60,4%), comparativamente a R$ 2,01 trilhões (63,1% do PIB) em fevereiro, e a dívida líquida do setor público foi a R$ 1,36 trilhão, 42,4% do PIB, elevando-se 0,3 p.p. do PIB em relação ao mês anterior.

Já a dívida mobiliária federal acabou avançando muito em abril contra março (+6,61%), registrando R$ 1,58 trilhão, com a emissão de títulos chegando a R$ 74,33 bilhões, na sua maioria derivada das operações de crédito entre Tesouro e BNDES.

O problema é que estimativas do mercado projetam uma dívida bruta em torno de 64,4% a 65% do PIB (em torno de R$ 2,2 trilhões) ao fim deste ano, sendo maior a preocupação com a interna, já que a externa é baixa e “superada” pelas reservas cambiais em torno de US$ 250 bilhões, representando apenas 3,4% do PIB. Embora numa “zona de conforto”, se comparada com o resto do mundo, o que preocupa na dívida bruta é sua trajetória de alta.

Basicamente, o aumento da dívida bruta se deu pelas operações com crédito oficial entre bancos, Tesouro e BNDES. Dos R$ 180 bilhões mobilizados nas operações entre Tesouro e BNDES, uma parte veio do superávit fiscal e outra da emissão de títulos públicos. O problema é que ambas as operações acarretaram em custo para o Tesouro Nacional.

Estas operações entre Tesouro e BNDES resultam num subsídio para os tomadores de empréstimo. Isto porque o Tesouro toma recursos no mercado a um custo maior do que o repasse feito pelo banco às empresas. Além disto, esta elevação da dívida bruta acaba sendo mal vista pelos investidores, que passam a exigir “prêmios” maiores para o carregamento dos títulos no mercado. Isto também se reflete no encurtamento do prazo da dívida mobiliária, tendo avançado de 24% para 25% naqueles títulos que vencem até 12 meses.

Além disto, embora esta dívida bruta não seja um risco no curto prazo, as agências classificadoras de rating observam com “lupa” sua trajetória. Caso esta se mostre crescente, é possível que o Brasil acabe sob observação, com perspectiva negativa, o que acabará por impactar no desempenho do Ibovespa neste ano, pela saída de investidores externos. Estejamos, portanto, atentos a isto.

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