Exercitar periodicamente a auto-análise é um hábito necessário para quem tem a pretensão de analisar o mundo que o cerca, seus elementos, seres e pares, coadjuvantes diretos ou não.

É por meio deste exercício que se busca entender o conceito e a aplicação do que se entende por moral, imoral e amoral. Em termos gerais, evidencia o que pode ou não se considerar cabível diante de pensamentos, fatos e eventuais situações.

O Estado e seus representantes, com ênfase nos representantes eleitos, devem refletir a decisão da maioria, garantindo os direitos também das minorias, quando considerados jurídica e socialmente legítimos e morais. Logo, em algum ponto da história nacional, a referida cláusula do contrato social de Rousseau se perdeu.

Por mais que errar seja humano, equívocos relacionados à eventual falha de caráter de alguns representantes eleitos para espelhar o Estado e os interesses do povo, uma vez provados, precisam ser tratados com transparência e, se necessário for, com punibilidade, incluindo o ressarcimento dos danos patrimoniais correspondentes.

Contudo, é fato público e notório que o devido processo legal aplicado nas Casas Legislativas não é observado em nossa querida Nação.

O atual presidente do Senado Federal, e, portanto, do Congresso Nacional, foi alvo de investigação séria e autêntica. Mesmo com todas as evidências trazidas às dezenas de pedidos de processo para que fosse afastado de suas funções, nem os processos vingaram, tampouco as Instituições Fiscalizadoras da aplicação das Normas se movimentaram dentro do poder discricionário que têm para investigar em nome da população (Ministério Público, Comissões Parlamentares).

A mensagem transmitida no caso é direta: quem exerce o Poder nesse País determina quando pode ou não observar a ética e a moral, seja na prática de atos pessoais, ou na ausência ou distorção completa de uma duvidosa auto-análise e, por óbvio, na condução dos bens e valores do povo.

Com pesar, a mensagem não é dirigida apenas ao eleitor. Fixa-se como exemplo de comportamento impune e imoral arrastado aos demais representantes e atores do Poder. Se assim não fosse, o governador do Distrito Federal não contaria com qualquer apoio diante da situação instalada por conta de sua comprovada corrupção.

Não bastassem os inúmeros pedidos de afastamento e cassação, verifica-se que, a cada dia, desde a publicação das provas pela imprensa, a gravidade do feito espúrio se dissipa. O partido ao qual é filiado o governador começou falando em expulsão. No momento fala em manutenção. Os aliados políticos declaram que nada é tão grave, afinal. Não se sabe afinal do que. Talvez diante do que considerem imoral em seus próprios conceitos de decoro.

Diante da manifestação pública que repudia o descaso à falta de ética do representante eleito, ainda que invasão de Casa Legislativa não seja a melhor opção, surgem manifestantes favoráveis à pessoa do governador acusado e de sua filosofia de administração pública. De quem se trata? Trata-se de uma parte de seus subordinados. Servidores Públicos do Distrito Federal. Entre eles um Secretário nomeado pelas mãos manchadas do próprio acusado.

Nada do que está sendo exposto aqui é fruto de investigação particular ou de um achar irresponsável. São dados públicos, informados por diversos veículos de imprensa, sem possibilidade, portanto, de partidarismo.

Dentre tantas questões de ordem política e social, a primeira deveria ser em que ponto alguns representantes do povo perderam o que os mais experientes chamam de brio e os mais novos chamam de vergonha na cara? Errar é humano, sim. Mas, dependendo do erro, sua previsibilidade e conseqüências, é necessário pedir licença e se retirar. No mínimo.

Qual nada. A quantidade de representantes eleitos e atuantes com alguma pendência moral é tão grande, que falar em oposição ou situação chega a ser ridículo. Quando o assunto é decoro parlamentar, existem dois partidos – o partido da esmagadora maioria comprometida, e o partido da ínfima minoria correta.

Parece irreal, mas é possível perceber-se com saudades de tempos bem próximos, em que uma lista secreta manipulada no Senado Federal realmente acabava em processo de cassação de políticos influentes, ou o mesmo se retirava antes desse resultado. Tempos em que presidente de Tribunal Regional do Trabalho era preso e seus bens confiscados. Tempos em que o atual governador do Distrito Federal também teve que abdicar de seu cargo no Congresso Nacional diante de evidente crime de responsabilidade.

Nos rumos que se apresentam, enquanto um “Brazil” oferece propostas e eventuais mediações para preservar o Clima Global, o outro Brasil semeia em suas terras furacões de desordem, ondas gigantes de insatisfação e descrenças, falhas enormes na camada da conduta moral de quem deveria ser exemplo. Se não mudarmos as sementes, a colheita será amarga demais para qualquer paladar.

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