O debate público nunca esteve tão pobre no Brasil. Um dos candidatos até já se pronunciou sobre o assunto, dizendo que não é iogurte. Só que mesmo o Serra está sem estratégia de argumentação política e paralisado diante do impasse de ser ou não oposição a Lula. Dilma então nem se fala. Não dá mostra de discernir uma coisa da outra e se deixa levar pelas mãos dos marqueteiros.

Acaba acreditando que o papel da Presidência é ser mãe caridosa para cuidar dos brasileiros desafortunados ou tocar obras pelo PAC afora. Marina, que poderia fazer a diferença repudiando a eleição plebiscitária que a arrogância dos políticos nos enfiou goela abaixo, tem currículo e argumento, mas não tem paixão, atributo essencial em política. Tratados como marcas, todos acabam nivelados por baixo pelos marqueteiros de plantão. Todos jogando para a mídia como se estivessem num palco de programa de auditório do tipo “Vai pro trono ou não vai?” Todos “produzidos”, como se o cidadão eleitor fosse imbecil e não soubesse avaliar as diferentes naturezas da burla teatral para a realidade da luta política. Todos posam para câmaras como se fossem atores. Todos apostam na demagogia das falsas promessas, na ausência de educação política e de discernimento crítico dos cidadãos brasileiros. Jogam com o déficit de cidadania política, enfim, habilmente estimulado e acumulado nas últimas décadas pelos demagogos usurpadores do poder que alijaram da vida política os melhores representantes de nossas elites.

Não há mais estadistas na vida política brasileira. Só negocistas, lobistas, delinquentes, trânsfugas da Justiça, mistificadores, vendilhões de templos e outros da mesma laia. Os que não querem a reforma política pois estão ganhando com a miséria da representação política desqualificada. Com as exceções de sempre que não chegam a um quarto de homens de bem nos legislativos e executivos federais e estaduais.

Temos de assumir que fomos nós os cidadãos mais conscientes que criamos ou nos omitimos do processo de mitificação quase religiosa que resultou na inexpugnabilidade eleitoral de Lula. Se Serra quer dizer que o país pode mais, diga diretamente para o cidadão que ele Serra pode fazer mais a partir de Lula e nunca contra Lula. Pois Lula é resultado e deu continuidade às políticas públicas implantadas por FHC, senão mesmo antes. E, por isso mesmo, porque a maioria aprovou e quer mais, elas devem continuar. Pois há 20 anos são políticas de estado e não de governos. E o Brasil merece o melhor gestor para melhorar ainda mais os programas até aqui implantados.

Se Lula é mito, não se luta contra um mito político. Ganhará esta eleição quem provar que é o melhor gestor para os programas de Lula, que devem ser mais bem entendidos como programas de estado do que de governos.

Fonte: Jornal “O Globo” – 02/09/10

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