Faltam lideranças na Europa

Os manifestantes gregos têm razão. Se os próprios governantes locais, quando apareceram os primeiros sinais de crise, acusaram a “criminosa especulação internacional” como a causa de tudo, por que trabalhadores e aposentados topariam um programa que corta os salários e benefícios deles e não os ganhos dos banqueiros? A Espanha vai pelo mesmo caminho.

O primeiro-ministro Zapatero também denunciou os especuladores pelos rumores segundo os quais o governo de Madri estaria negociando um pacote de ajuda financeira com o FMI — circunstância que levou a um aumento nas taxas de juros cobradas do governo espanhol.

É claro que há especulação. Credores especulam sobre a capacidade de diversos governos (espanhol, português, italiano, irlandês) continuarem pagando suas contas em dia. E por que especulam? Porque têm muito dinheiro emprestado para esses governos, dinheiro que, até 2008, financiou gastos públicos, aí incluídos salários, contratações e aposentadorias não raro generosas.

Eis o ponto: só há especulação porque os governos apresentam contas problemáticas, com dívidas elevadas e déficits anuais expressivos, que alimentam ainda mais aquelas dívidas.

Além do mais, aqueles países, na saída da crise, a outra, a de 2008/09, não conseguem crescer. E sem crescimento, cai a arrecadação de impostos, a receita dos governos.

Mas há mais: governantes têm dito que a especulação é criminosa, ou seja, que bancos e fundos forçam deliberadamente a alta dos juros pagos pelos governos, de modo a lucrar mais.

Podem até ocorrer movimentos assim no curto prazo do mercado. Mas reparem: os bancos europeus são credores dos governos, compraram os títulos emitidos por eles. Logo, o interesse maior deles, credores, é a boa saúde do devedor. Cliente falido não paga.

Mesmo que um fundo qualquer fique feliz em tomar uns juros a mais da Espanha, hoje, o interesse do sistema financeiro europeu é que a Espanha e os demais países não quebrem.

Por isso, aliás, muitos analistas dizem que o sistema financeiro toparia de bom grado uma reestruturação das dívidas — aliviando a situação dos devedores. Ok, de bom grado, não, mas na linha do relaxa e goza.

Mesmo com a reestruturação, porém, os governos precisarão controlar gastos e impor sacrifícios às suas populações de modo a equilibrar orçamentos e reduzir o endividamento.

Os anos pré-crise, a de 2008-09, foram de abundância de capital a juros baixos. Todos se aproveitaram disso, de uma maneira mais ou menos sábia.

Alguns gastaram com salários do funcionalismo e ampliando os benefícios das aposentadorias. Outros construíram infraestrutura. Mas, agora, todos têm que pagar.

Líderes políticos sérios deveriam estar contando essa história para seus eleitores. Por que não o fazem? Essa história implica admitir um fracasso ou pelo menos a responsabilidade pela deterioração das contas públicas. Foi fácil para o atual governo grego mostrar todo o tamanho do buraco em que o país se metera. Mas isso porque acabara de assumir, de modo que toda a culpa era dos antecessores.

Ainda assim, os governantes, do Partido Socialista, hesitaram bastante antes de admitir que precisavam de um programa duro de contenção de gastos, que está agora provocando essa onda de protestos. Mesmo porque os socialistas defenderam muitas das vantagens que agora precisam retirar.

De todo modo, se não houver uma liderança firme e esclarecedora, os protestos vão continuar, pois os eleitores não saberão qual conta estão sendo convocados a pagar. Essa oposição pode levar ao fracasso do programa e à suspensão do financiamento externo. E aí o ajuste se fará da maneira mais sangrenta: o governo simplesmente ficará sem dinheiro, suspenderá pagamentos, incluindo de salários e aposentadorias, e jogará o país na trilha do calote desorganizado.

Lembram-se da Argentina? Em dado momento, pagaram aposentados com bônus, papéis que valiam a metade do valor de face tão logo chegavam ao supermercado.

É essa a opção na Europa, um ajuste organizado ou na marra. Para o civilizado, são necessárias lideranças melhores que as atuais.

 

Fonte: Jornal “O Globo” – 06/05/2010

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