Há uma má notícia em formação: a inflação subindo aqui no Brasil, e a culpa maior não é da crise financeira internacional. Ao contrário, é mais do que aconteceu antes da crise.

Os últimos índices de inflação surpreenderam, mesmo considerando que já se esperava uma alta. Vieram ainda mais elevados e, como sempre, as causas são variadas.

Na conta da turbulência internacional, pode-se colocar o dólar. No ambiente pré-crise, as seguidas quedas da moeda americana derrubaram preços de importados e de produtos com componentes importados e que competem no mercado externo. Foi uma poderosa força antiinflacionária.

As altas recentes do dólar mudaram as expectativas. Não se pode mais garantir que o dólar vai continuar caindo e levando junto a inflação. Também ainda não há razões para se esperar uma disparada da moeda americana. Assim, perdeu-se uma poderosa força antiinflacionária, surgiu um fator entre neutro e moderadamente inflacionário, se a turbulência internacional persistir.

Olhando para os fatores internos, há fortes sinais de inflação de demanda, quando os preços ficam pressionados pelo aumento do consumo. O crescimento do consumo é evidente. As vendas do comércio varejista, na medida do IBGE, vêm fortes há vários meses. No primeiro semestre deste ano, foram 13% acima do mesmo período de 2006, tanto no que se refere ao volume de vendas quanto ao faturamento.

No mesmo período, há setores que simplesmente detonaram, como automóveis e computadores, com vendas se expandindo mais de 22%. Móveis e eletrodomésticos subiram 16%.

Isso decorre de uma combinação de ganhos de renda, aumento do número de ocupados e, muito especialmente, a forte expansão do crédito. Tudo benefício direto do fim da inflação. Ou seria possível financiar um carro em 80 meses, com prestações fixas, num ambiente inflacionário? Ou seria possível manter o valor real dos salários com preços subindo todo dia?

O problema é que o consumo acelerou mais depressa que a produção. Até certo ponto, é normal. As empresas, quando percebem o aumento de consumo, procuram atender com melhorias nas fábricas, ganhos de produtividade e, sobretudo, mais horas e turnos de trabalho. Só então, mantida a tendência, tratam da nova planta.

E a verdade é que se tem ouvido falar pouco de novas fábricas. Montadoras de automóveis, por exemplo, ainda têm capacidade de produção para ocupar, mas se confiassem na manutenção do ritmo atual de vendas já estariam tratando das novas plantas.

Talvez seja um excesso de cautela, mas o fato é que o consumo continua à frente da produção. Pode-se compensar isso com o aumento da importação, o que está ocorrendo. Mas, primeiro, não se pode importar tudo. Serviços, por exemplo, não tem como. Além disso, não é fácil iniciar um processo de importação. É preciso fazer contratos, montar redes de distribuição e assistência (nos casos de eletrônicos). E, finalmente, o dólar já não é garantia firme de preço baixo.

A consequência: na última medida do IPCA, índice do IBGE que serve de referência para o regime de metas de inflação, houve alta de preços em 60% dos itens que formam o indicador. E a inflação no setor de serviços foi de 0,5% no último mês, elevada para uma meta anual de 4,5%.

Em cima disso, coloque os preços de alguns alimentos, como de leite (e derivados) e carnes. Estão em alta forte aqui por causa, primeiro, da entressafra, que é passageira. Mas estão elevados também por causa do aumento do consumo mundial, em especial na Ásia e mais especialmente na China. E isso é um fator permanente, decorre do enriquecimento daqueles países.

Assim, uma coisa aqui, outra ali, entre o leite e o dólar, a inflação deu sinais de vida. Certamente, não é daquela de nosso passado recente, mas muda o ambiente. E cria um problema para o Comitê de Política Monetária do Banco Central, Copom, que se reúne na semana que vem.

A maioria dos analistas ainda espera mais uma redução na taxa básica de juros, mas de apenas 0,25 ponto percentual. Todos com pé atrás. Há agora uma nova combinação negativa: o dólar, a alta recente de preços de alimentos e de serviços, a turbulência internacional (que eleva juros) e um fator antigo, que é gastança do governo. Dados divulgados ainda ontem pelo Ministério da Fazenda, para o período janeiro/julho, mostram que as despesas do governo federal estão crescendo 13% nominais em relação ao ano passado. É muito mais que a inflação e muito mais que o crescimento da economia, situação que se repete desde 2003.

Sem contar que, nesses gastos, há muita despesa de pessoal, previdência e custeio, e pouquíssimo de investimento em infra-estrutura, que criaria capacidade de crescimento.

Muito consumo, pouco investimento, isso não funciona para sempre.

(O Globo, 30/08/2007)

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