A magia alimenta nossa vontade de viver. O encantamento do mundo foi uma exigência de vidas conscientes primitivas, assombradas ante a grandiosidade do existir. Qual seria o sentido de vidas biologicamente acidentais, tão frágeis e sobretudo curtas? Demos significado e fôlego a existências precárias elaborando nossas primeiras crenças e religiões. Filósofos e teólogos imaginaram mundos ideais e vidas eternas. Foram sopros de esperança em nossa tentativa milenar de escape às despretensiosas origens e possibilidades do ser humano.

Os homens são uma extraordinária espécie que ousou rejeitar sua modesta natureza. Atrevemo-nos a esboçar rotas de fuga a uma incontornável realidade física e às forças cegas de um universo cuja compreensão transcende nossos limites cognitivos. Mesmo às mais avançadas hipóteses científicas, ainda se aplicam versos de Xenófanes (500 a.C.): “Quanto à verdade, com certeza, nenhum homem a conhece, pois tudo é apenas uma intrincada teia de suposições.”

Como dar significado a vidas efêmeras se o conhecimento nada pode assegurar quanto a sua transcendência? Como construir um mundo melhor após a morte de Deus para intelectuais que abandonaram a fé pela ciência? “A transitoriedade de nossa existência de forma alguma retira seu significado. Ao contrário, torna-se um incentivo para nos dedicarmos a realizar nossas possibilidades com toda intensidade”, aconselha Viktor Frankl, em “A busca humana por significado” (1959).

Compreender é um milagre ainda maior do que existir. A consciência é a oportunidade de experimentar possibilidades que transcendem as dimensões materiais de um mundo físico. A espiritualidade, a estética, a moral, a música, a imaginação e a própria consciência da razão são dimensões inacessíveis a outras espécies. Diferentes coordenadas tornando único cada ser humano neste universo multidimensional.

“O real sentido da vida é justamente criar significados próprios para nossa existência. Esculpir nosso futuro. Aperfeiçoar nossos talentos. O trabalho significa responsabilidade e cooperação com os demais, em busca de sonhos comuns. E sem amor estamos perdidos, somos vazios, andarilhos sem raízes, insensíveis aos semelhantes”, alerta Michio Kaku, em “Universos paralelos” (2005). Que possamos dar mais significado a nossas vidas a cada dia em 2012, com saúde, inteligência, imaginação, trabalho e, acima de tudo, muito amor.

Fonte: O Globo, 02/01/2012

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