A dificuldade para encontrar um substituto para o agora ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento está no fato de que o ministério se transformou em um feudo do PR, e ao que tudo indica é o mesmo Alfredo Nascimento, agora na sua encarnação de senador da República e presidente do PR, que comandará a escolha do seu substituto, o que não faz o menor sentido, mas, no “presidencialismo de coalizão”, ganha um sentido todo próprio.

O perigo desse sistema de coalizão política que nós temos é que os ministérios acabam se transformando em feudos partidários, e a partir daí os políticos filiados a esses partidos recebem favores, oferecem favores para que outros engrossem as fileiras partidárias com a certeza de receber os mesmos favores, e montam esquema de negociações com as empresas privadas que dependem das obras do ministério.

O governo Lula utilizou o mensalão e outras benesses para atrair o maior número de parlamentares para os partidos de sua base aliada, até que montou o que temos hoje no governo Dilma, uma coalizão que reúne o maior número de partidos políticos já reunidos por um governo na redemocratização.

Agora, estamos vivendo uma nova etapa, com os partidos encastelados em seus feudos, oferecendo vantagens para que políticos engrossem suas fileiras. Quanto maior o partido, mais força ele terá dentro da coalizão governamental.

A permanência do PR à frente do Ministério dos Transportes é um sintoma de que a crise política não se dissipará tão cedo.

Dificilmente o governo encontrará alguém dentro dos quadros do PR que tenha condições de alterar a sistemática implantada pelo partido nesses últimos sete anos.

Dois ministros terem sido demitidos do governo Dilma Rousseff em apenas seis meses é um fato político relevante que traz consigo dois significados que se contradizem: de um lado temos um governo que está contaminado por práticas políticas nefastas; por outro, bem ou mal este mesmo governo reage a denúncias de corrupção e acaba se livrando dos acusados , c o m maior ou menor dificuldade em cada caso.

A unir os dois demitidos — o ex-ministro-chefe da Casa Civil Antonio Palocci e o ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento — há o fato de terem sido indicações, quase imposições, do ex-presidente Lula, o que certamente quer dizer alguma coisa.

Palocci foi imposto por Lula na equipe que coordenou a campanha eleitoral de Dilma, mas, com o tempo, ganhou a confiança da candidata e assumiu o posto mais importante do governo com plena aceitação da presidente eleita, que passou a ter nele seu homem de confiança.

Já o ex-ministro Alfredo Nascimento não contava com a confiança da presidente desde os tempos em que ela comandava a Casa Civil, e só ficou no Ministério dos Transportes porque o ex-presidente Lula o impôs, entre outras razões para manter seu amigo petista João Pedro, suplente de Nascimento, no Senado.

A demissão do ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento era inevitável desde que as denúncias da revista “Veja” evidenciaram que estava montado naquele ministério, ocupado pelo Partido da República (PR) há sete anos, um esquema de corrupção que envolvia todos os seus órgãos executivos, do Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit) à Valec, cujos dirigentes foram demitidos.

A única razão para que sua demissão não tenha saído antes é a mesma que impede hoje a presidente de nomear seu substituto: ela não tem força política para prescindir dos 40 deputados federais e cinco senadores que formam a bancada do PR, presidida justamente por Alfredo Nascimento, que reassume seu cargo no Senado (serão agora seis senadores) e a presidência do partido, para complicar mais ainda a situação.

A presidente esperou que a chamada grande imprensa colaborasse mais uma vez, fazendo novas denúncias, enfraquecendo o ministro para que ele caísse de podre, como aconteceu.

A gota d’água foi a reportagem do GLOBO de ontem mostrando que o filho do ministro fazia parte daquele grupo especial de “empreendedores” que os governos petistas produzem: da noite para o dia, viu os lucros de sua empresa de construções crescerem mais de 86.000%, o mesmo que aconteceu com o filho do próprio presidente Lula e também os filhos da exministra Erenice Guerra, que substituiu Dilma na Casa Civil, de nada saudosa memória.

A prosperidade espantosa do filho do ex-ministro Nascimento foi gerada, em alguns casos, também pela negociação com empresas que financiaram a campanha eleitoral do PR e tinham negócios como Ministério dos Transportes.

Novas denúncias devem continuar a aparecer, já que nesses sete anos em que o Ministério dos Transportes foi transformado em feudo do PR muitas negociatas ainda não conhecidas devem ter sido feitas, a medir pelas denúncias que já apareceram.

Fonte: O Globo, 07/07/2011

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