No mundo humano qualquer coisa pode ser digerida e metabolizada. Pode não ser comida, mas é sempre metabolizada pois não há nada sem sentido dentro do que chamamos de sociedade, linguagem ou sistema de valores.

Um sistema de crença tudo engloba e define. Dá significado forte e pleno ao que dele faz parte e classifica com mais força ainda o que eventualmente ignora. Num universo feito de significados, nada deixa de ter sentido. Não há resíduos, pois o que sobra já tem um vasto significado como erro, pecado, tabu, crime ou, pior que isso, ignorância. Para o crente, pior que o descrente, é o indiferente. Para um monoteísta, o escândalo não está no politeísmo e muito menos no materialismo que também tem seus aspectos transcendentais, mas no pessimismo consciente de limites, orgulhoso da finitude humana das coisas. Não ter sentido é um vasto sentido. Algo pior, talvez, que o inferno. Próximo do limbo e do nada. Irmão da loucura e da desordem que, dizem os sábios, é a única coisa que os seres humanos não podem suportar.

Se tudo tem significado, nem tudo tem o mesmo significado. Veja o caso da bola. Nos Estados Unidos, o futebol mais popular e famoso é jogado com um ovo ou, talvez, com uma bala. Mas os americanos chamam aquele objeto que passa de mão em mão, de mão em pé, e de pé em mão – mas jamais de pé em pé (como ocorre no nosso jogo) – de bola. Ademais, por lá, as bolas são uma metáfora da masculinidade. Para nós, porém, a cultura escolheu o outro órgão: o que deve ser mostrado quando se mata a cobra. A bola é também metáfora do mundo, que – imprevisível e indiferente – gira e gira, como no comovente tango argentino. Vai nisso a nossa permanente e saudável desconfiança sobre um mundo sem percalços, acidentes, desonestidades e surpresas. Confirmando a normalidade da anormalidade, a atual crise demonstra que o mundo é mesmo uma bola!

Filantropia significa profundo amor à Humanidade. Caridade tem a ver com Deus, filantropia com uma moderna concepção de vida em comum. Ajudar aos pobres com a certeza de que se está emprestando a Deus é fazer a caridade, é agir conscientemente cego em relação a objetivos imediatos ou a pessoas específicas. Ajudar a universidade onde se estudou, ou a crianças de rua, índios e a recuperação do planeta, medindo resultados e solicitando verbas do governo, é filantropia. No Brasil, a filantropia se faz dentro da lagoa da caridade; nos Estados Unidos, mais talvez do que qualquer outro país, a filantropia se realiza dentro da poça da caridade. Se não fosse o exagero permitido ao cronista, dir-se-ia que a filantropia é guiada pela culpa e pelo desejo da imortalidade neste mundo porque no outro não se sabe; ao passo que a caridade se exerce pela vergonha e com o olho no outro mundo. Afinal, como não dar a esmola se aquele pobre era mesmo um horror de pobreza e o seu olhar me obrigava a fazer alguma coisa?

Já o filantropo (geralmente um sujeito rico) reembolsa com projetos alguma categoria social esquecida ou marginalizada pelas políticas públicas. Nas universidades americanas particulares, os ex-alunos, reconhecidos do que ali aprenderam e sabedores que os pobres têm dificuldade especiais naquele sistema, fundam uma instituição especial para que eles não passem o que eles passaram. E como o que cada ser humano sofre é infinito na sua variedade e intensidade, há fundações filantrópicas para muitas necessidades e estados sociais. Em Harvard, no ano de 1968, recebi uma bolsa Harvey, destinada a ajudar estudantes com poucos recursos que escreviam suas teses de doutorado. Se fosse milionário, instituiria uma fundação para atender alunos brasileiros de antropologia com mais de dois filhos e que gostassem de ler os grandes romancistas…

Só no Brasil as fundações construídas em memória de alguém são atendidas pelo governo. Agências filantrópicas são perdoadas de irregularidades que as transformam em “pilantrópicas” por medida provisória. É vergonhoso e inaceitável descobrir falcatruas nessas instituições porque elas têm como raiz o voluntariado, a brecha deixada pelo Estado. Quando fazem “pilantropia”, o altruísmo é substituído pelo mais raso egoísmo.

Trata-se do tal metabolismo que transforma o sentido quando um objeto muda de lugar. E assim segue a vida coletiva, trocando as bolas e enviesando significados. Revelando como somos seres dos contextos e das linguagens que nos guiam e recheiam nossos vidas de infâmia ou de generosidade.

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