Filicidas ou Branca de Neve no Brasil

Branca de Neve, a Bela Adormecida e a Gata Borralheira são histórias colhidas na préAlemanha pelos irmãos Grimm e por todos os que seguiram seus passos numa Europa que buscava e inventava suas múltiplas e complexas identidades nacionais. A mais famosa é a história da Branca de Neve, provavelmente por ter sido imortalizada num desenho de longa metragem de Walt Disney, mas todas essas lendas fazem parte de um ciclo de narrativas que exprimem o que pode ser chamado de confusão entre descendência e afinidade. Entre o amor devocional demandado à maternidade e o afeto mais ou menos livre contido no papel de madrasta que se transforma em mãe pelo amor conjugal dimensionado como erótico e livre.

O papel de madrasta não é bom. Ele denota maldade (a vida pode ser “madrasta”), intrusão, alguma coisa de usurpação que, como sabem os antropólogos que estudavam de sistemas de parentesco, deve-se a ambiguidade que se apossa da mulher que “toma” o lugar da mãe numa sociedade conjugal desfeita por viuvez ou divórcio. Tal ambiguidade é ampliada quando a madrasta tem seus próprios filhos com o viúvo (ou o divorciado) e surgem inevitáveis comparações entre filhos e enteados num ambiente que não as comporta, pois comparar supõe igualdade e rivalidade e, na nossa família, todos têm um lugar fixo.

Deste mesmo ciclo faz também parte uma história que titia Amália (ela própria enteada de minha avó Emerentina, sua madrasta!) nos contava nos dias de chuva, intitulada “Os três menininhos com uma estrela de ouro na testa” e que faz parte do vasto folclore português que adquiriu no Brasil feição particular. Nessa fábula, um rei enviuvado casa-se com uma moça que, odiando os filhos do casório original, marginaliza criminosamente os príncipes, fazendo com que sejam criados como pobres a despeito de sua origem aristocrática. Por isso, usam um chapeuzinho que esconde a pequena estrela que estampam na fronte como prova natural de suas origens. No final, como todos sabemos e os eventos que cercaram o crime dos Nardoni nos relembrou, essa legendária usurpadora é condenada e os meninos retornam ao palácio onde reassumem seus papéis reais. Coroa a lenda uma grande festa com muitos doces e guaranás e tudo o mais que meus irmãos e eu desejávamos e Titia exagerava, pois ao contador ou ao narrador não deve faltar generosidade.

Ouvi essas histórias muitas vezes.

Hoje, entendo a preferência de Amália por esses contos de madrastas malditas que certamente apaziguavam seus ressentimentos num grupo familiar complicado, feito de viúvos com filhos que, casados, tiveram seus próprios filhos.

Muitas vezes acordei-me pela noite perdido na escuridão que confundia sonho, folclore e fantasia pessoal.

Apalpava então a testa onde — quem sabe? — encontraria uma estrelinha de ouro, sinal de minha predestinação. Temi pela sorte de meninos que sofriam nas mãos cruéis de suas eventuais madrastas e rezei muito para mamãe não morrer e obrigar o pai a buscar uma intrusa que iria nos tratar com má vontade, protegendo seus rebentos com aquele pai que logo esqueceria seu amor por nós.

Qualquer que seja a opinião, a semana que pertenceu ao caso Nardoni oferece a seguinte lição: cada “fato” só se transforma em “evento” quando rasga o véu de uma memória esquecida. Foi justo o que ocorreu no julgamento dos Nardoni. O crime trouxe de volta todos esses registros que definem os laços de descendência ou de filiação por contraste aos de casamento ou de amor sensual. Os primeiros estabelecem elos indiscutíveis de “respeito” e “obrigação” que encobrem o enorme poder (emocional e físico) que os pais têm sobre seus filhos. Esse poder oculto e cerceado por tabus que os mitos acentuam e Freud desvendou para ampliar nosso conhecimento e responsabilidade sobre nós mesmos. Os segundos abrem escolhas e possibilidades, daí sua associação com negócio, furto e transação. Um antropólogo antigo dizia: casar fora ou morrer fora, insi nuando que um modo de deixar de ser estranho era casar na tribo ou na sociedade visitada.

Sabemos que os elos de casamento transformam-se com o tempo e com os filhos. Mas sabemos também que eles podem ser a fonte de amargos conflitos.

No Brasil, a chave do sistema familiar, como revela esse trágico e triste caso, é o papel de mãe. O pai pode faltar, pois ele não funda a casa; mas se a mãe está ausente (por morte ou doença), a casa fatalmente cai. Pior que isso, entretanto, é a presença da madrasta que, repetindo os mitos, entra em conflito com a Branca de Neve e, perseguindoa, coloca-a — sem saber — no lugar da mãe ausente por morte ou separação. Quando essa situação é constituída, os enteados passam de dependentes a rivais. Seriam empecilhos e bodes expiatórios para o deslanche da nova família. Dai o filicídio retratado pela lenda e que a realidade amplia da forma mais cruel e dramática.

Afinal, o que os mitos mostram é o poder de certos papéis sociais. A sua força coercitiva dentro da trama de obrigações e lealdades implicadas na construção — essa construção sempre delicada — do humano.

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