Fim de um ciclo político

Com o mensalão, o PT perdeu o véu da castidade; o discurso da ética virou pó, traindo a confiança de milhões de cidadãos que acreditavam nas bandeiras do partido. Com exceção de Lula, as principais lideranças petistas saíram chamuscadas daquele processo crime, sendo que alguns altos próceres foram condenados, por corrupção, pelo egrégio Supremo Tribunal Federal (STF). Sem cortinas, por mais incrível que possa parecer, os mensaleiros transformaram a política em um caso de polícia. E, quando a política fica à mercê do crime, a democracia vira um jogo venal de cartas marcadas.

O petrolão, por sua vez, é a pá de cal; o impressionante esquema de corrupção, envolvendo a maior empresa estatal brasileira, levará o PT para o túmulo. Guardado o ataúde, a história o lembrará como o partido mais corrupto do Brasil. Talvez, em um futuro próximo, a sigla será esvaziada, criando-se uma nova agremiação partidária com os mofados estandartes do passado. O teatro, como sempre, tentará reviver. Mas, independentemente do que irá acontecer, é hora de olharmos para os fatos com imparcialidade e isenção. Nesse contexto, a derrocada petista é o traço mais evidente do fim de um ciclo político brasileiro.

Objetivamente, as forças políticas tradicionais estão superadas pelos acontecimentos do mundo. Estabelecida a revolução tecnológica, a livre circulação de ideias e a ampliação exponencial das potencialidades individuais, os partidos se transformaram em estruturas anacrônicas e agudamente distantes dos reais anseios do cidadão. O fenômeno é global. A política deixou de atrair a atenção da juventude e das personalidades superiores, vindo a apresentar uma substancial degeneração qualitativa. Eis aí um dos paradoxos da modernidade: somos livres, mas irresponsáveis com nossa liberdade política.

A desesperança traz consigo a descrença política, abrindo espaço para os piores populismos e os radicalismos mais extremados

Democracia autêntica requer uma cidadania ativa e um povo participativo. Quando os bons cidadãos se ausentam da vida pública, é criado um vácuo de representação que, no mais das vezes, é preenchido por oportunistas de ocasião e seus interesses banais. Em tese, os partidos deveriam garantir uma certa organicidade à atividade política, criando políticos conscientes e devotos à causa do bem comum. Infelizmente, em uma vida moderna pautada pelo brilho das cifras, e não pelos valores da decência e da moral, os partidos acabaram virando profanas empresas eleitorais, dirigidos por gananciosos mercadores do poder, sedentos por negócios bilionários. O sistema está podre, mas muita gente ganha com isso. Para manter o status quo, os velhos partidos e suas forças reacionárias e hostis criaram uma mercenária “democracia negocial”, transformando cidadãos em rasos consumidores de uma política fútil e enganosa.

Baixada a nuvem de fumaça, o povo iludido constatou que o produto eleitoral não funciona, criando um ambiente social de progressiva insatisfação popular. A desesperança traz consigo a descrença política, abrindo espaço para os piores populismos e os radicalismos mais extremados. A hora é de reflexão crítica e olhos abertos para as manobras do poder. A título de sugestão, será que, diante da dilacerante decadência partidária, o instituto da candidatura legislativa independente não seria um bom renascer para um país carente de novas lideranças positivas?

Fonte: O Estado de Minas, 18/3/2015

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