No início do mês de dezembro muitos achavam que se confirmaria um rally de final de ano na bolsa de valores brasileira, até então acumulando valorização maior que 80%. Ao fim da semana passada (dia 18), este processo acabou questionado, dada a volatilidade do mercado, com as perspectivas cada vez mais presentes de retirada das medidas de estímulo monetário nos EUA.

Foi isto, aliás, que norteou o comportamento dos mercados nesta semana que passou. No comunicado do Fed, sancionando a manutenção da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%, anunciou-se nas entrelinhas que deve ser retirada a injeção de recursos no sistema bancário norte-americano em fevereiro de 2010, o que reduzirá sobremaneira a liquidez dos mercados. Além disto, os mercados futuros de juro, do Fed Funds, por lá, já começam a sinalizar elevação da taxa em junho do ano que vem.

Mesmo com todas estas incertezas, por aqui a economia segue em célere retomada. A ata do Copom tratou de comentar sobre isto, sinalizando melhoria na atividade econômica e no nível de emprego, com as pressões inflacionárias contidas e “as margens de ociosidade não devendo ser eliminadas rapidamente”.

Chamou a atenção, no entanto, a meta fiscal para este ano, com o superávit primário a 2,5% do PIB, mesmo com o desconto de 0,94% do PIB com os recursos do PAC. Para 2010 foi a 3,3%, com o desconto de 0,68%. Seria factível? Sinceramente, não acreditamos, até porque as despesas com custeio seguem pressionando as contas públicas, com os investimentos públicos ainda em patamar insuficiente.

Para a ata, inclusive, as pressões inflacionárias seguem benignas, pelo menos por enquanto, mas o governo monitora os riscos de uma demanda acelerando muito rapidamente, o que se refletiria na redução da ociosidade da indústria. Sobre as projeções anunciadas, chama à atenção a dos preços administrados, previsto em 4% para 2010 e 2011, com a energia elétrica reajustada em 3,3% em 2010, a telefonia fixa em 1,6% e a gasolina estável. Já o Nível de Utilização da Capacidade Instalada deve se expandir de encontro com o aumento dos investimentos. Ressaltemos, neste caso, o baixo patamar da taxa de investimentos, em torno de 17,7% do PIB, mas ainda aquém do piso de que precisa para um crescimento consistente em torno de 5% ao ano. Para isto, seria necessário um volume de investimentos ao redor de 25% do PIB.

O problema é  que o volume de poupança interna do País é considerado insuficiente, o que ajuda a explicar os déficits em conta corrente seguidos nos últimos meses. Com insuficiência de poupança interna, tanto do governo como do setor privado negativas, não vem restando ao País outra saída a não ser importar poupança, gerando então seguidos déficits em conta corrente. Em novembro passado não foi diferente, com mais um rombo nas contas externas.

Para muitos, inclusive, o fraco desempenho do setor externo neste ano é uma demonstração da retomada de expansão da economia, dado o crescimento da demanda interna. Para outros, no entanto, este déficit em conta corrente, acima de US$ 22 bilhões, é um sinal de fragilidade, com os investidores passando a enxergar a economia brasileira com desconfiança, dada insuficiência de poupança interna, essencial para o financiamento dos investimentos domésticos.

Em novembro, o saldo externo foi negativo em US$ 3,28 bilhões, elevado a US$ 18,07 bilhões no ano e a US$ 21,19 bilhões no acumulado em 12 meses.

Por enquanto, este desequilíbrio não se mostra tão preocupante, já que o volume de investimentos externos diretos vem compensando. No ano, o ingresso líquido destes chegou a algo em torno de US$ 20,85 bilhões no ano e US$ 28,97 bilhões em 12 meses. Os investimentos em ações foram a US$ 1,90 bilhão em novembro, totalizando US$ 33,62 bilhões no ano, e em renda fixa a US$ 1,35 bilhão, com US$ 9,45 bilhões no ano. Já a taxa de rolagem da dívida externa chegou a 262% em novembro, totalmente rolada com boa “sobra de caixa”, mas no ano, com a crise, acumulou 95%.

Nas projeções do setor externo para este ano e o próximo, o saldo em conta corrente deve fechar 2009 negativo em torno de US$ 23 bilhões, indo a US$ 34 bilhões no ano que vem, e os investimentos externos diretos devem chegar a US$ 24 bilhões neste ano, passando de US$ 35 bilhões em 2010. Com isto, o volume de remessas de lucros e dividendos deve crescer em 2010, com as saídas passando de US$ 22,5 bilhões neste ano para cerca de US$ 30,4 bilhões no próximo.

Há de se observar, concluindo, uma melhora no perfil destes déficits externos, não mais gerados pelo aumento dos encargos, dificultando seu financiamento, mas sim financiado por recursos de boa qualidade, os investimentos externos diretos, o que não deixa de ser um alento, por estes serem suficientes para o financiamento externo. Assim seja!

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