Fora de hora

A fome de poder provoca na política recorrentes episódios de imoralidade e truculência. A prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, pelos socialistas bolivarianos de Maduro. O assassinato do líder oposicionista Boris Nemtsov na Rússia de Putin. A estranha morte do procurador Alberto Nisman na Argentina de Cristina Kirchner. Alarmantes reedições da “histórica monstruosidade de um totalitarismo alimentado pelos nacionalismos e pelos socialismos, extraordinárias religiões do paraíso terrestre que se desintegram durante suas próprias experimentações”, registra Edgar Morin em “A minha esquerda” (2010).

Dilma Rousseff atribuiu aos descuidos de FHC a escalada da corrupção na Petrobras. Tendo sido ministra de Minas e Energia, presidente do conselho de administração da empresa e exercendo seu segundo mandato na Presidência da República, acusar FHC por desleixo constitui inapelável autocondenação. Melhor seria atribuir-­lhe a paternidade do projeto “20 anos no poder”, com a aprovação da emenda constitucional da reeleição. Desastrado príncipe florentino da sociologia nativa, cuja vaidade só foi menor do que a esperteza do brasileirinho de Garanhuns. Sem ter ido à Sorbonne, Lula teve a sabedoria de resistir à tentação de nova emenda que lhe permitiria sucessivas reeleições. Lula não era Chávez, o Brasil não era a Venezuela.

Nossas instituições serão testadas

É incompreensível, portanto, a ameaça de Lula de convocar o “exército de Stédile” para brigar nas ruas. Urra Stédile: “Ganhamos as eleições nas urnas, mas fomos derrotados no Congresso e na mídia. Agora vamos ter de derrotá-­los nas ruas”. Vozes da caserna reagem: “O Brasil tem apenas um exército, que é o de Caxias.” Lula presta um desserviço à democracia e desmerece sua luta pela redemocratização. É inaceitável sua ameaça de convocação de camisas negras, pardas ou vermelhas. Lula deveria avisar a Stédile que Collor ganhou nas urnas e foi derrotado na mídia e no Congresso. Constitucionalmente. Por um Fiat Elba, uma gota ante as dimensões oceânicas do Petrolão e do Mensalão.

Por falta de evidências de envolvimento da presidente Dilma nos escândalos de corrupção, são inapropriadas e intempestivas tanto as manifestações por seu impeachment quanto as mobilizações contra o “golpismo”. Nossas instituições serão testadas.

Fonte: O Globo, 2/3/2015

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