A economia mundial vem crescendo de modo sensacional há quatro anos. O produto global aumenta quase 5% anuais desde 2003. Mais importante ainda, todas as regiões avançam em ritmo forte. O comércio internacional é um dos principais fatores dessa fase de prosperidade, somente comparável à que ocorreu no início dos anos 70. Conforme dados do Banco Mundial e do FMI, o total de exportações e importações de bens e serviços tem crescido na base de 9% ao ano. Isso significa mais globalização, mais produção integrada. Essa é talvez a principal explicação para o fato de quatro anos de crescimento forte — talvez acima do chamado produto potencial — não terem gerado pressões inflacionárias. É curioso, porque a forte demanda mundial provocou o aumento significativo de alguns preços estratégicos, a começar pelo do petróleo, mas também de aço, metais e de alimentos. Mas ficou mais no atacado. No varejo, os preços mantiveram-se comportados, em conseqüência de dois fatores: maior produtividade e mais competição. Ambos têm a ver com o comércio externo. Importações, além de facilitarem as compras do consumidor, também dão acesso a insumos mais baratos, a máquinas e tecnologias que tornam mais eficiente a produção local. Pode-se, portanto, concluir: sem a forte expansão do comércio mundial, a economia global não teria crescido como cresceu. Mais ainda: sem comércio mundial, os países emergentes e pobres não teriam conseguido o forte crescimento que vêm obtendo nos últimos anos. Nesse ambiente, não deixa de ser paradoxal o fracasso da Rodada de Doha, cujo propósito era ampliar a liberalização do comércio, especialmente no setor agrícola, onde o equilíbrio é o mais injusto. A abertura de mercados para produtos agrícolas favorece em primeiro lugar os países menos desenvolvidos, incluindo os muito pobres. De outro lado, são os países mais ricos, Estados Unidos, Japão e os grandes da Europa, que mantêm as mais vergonhosas barreiras comerciais e pagam os maiores subsídios a seus agricultores ineficientes. Por isso, as negociações lançadas pela Organização Mundial do Comércio em Doha, capital do Qatar, em 2001, com o mundo traumatizado pela derrubada das torres de Nova York, foram chamadas de “Rodada do Desenvolvimento”. O espírito era claro: ampliar as oportunidades da globalização para os mais pobres. O impasse das negociações é, assim, um fracasso de enorme significado. Dá argumento aos que dizem, erroneamente, que a globalização só vale para os ricos. Mas, e segue o paradoxo, é possível que a prosperidade recente explique o fracasso de Doha. Afinal, podem dizer os interessados, se o comércio mundial está crescendo sem esse acordo, então ele não é tão essencial. Os países emergentes, principais interessados numa nova rodada de abertura, têm encontrado seus mercados de um modo ou de outro, pela simples e boa razão de que os consumidores dos países desenvolvidos demandam suas mercadorias. E porque muitas economias emergentes, como a da China, demandam matérias-primas e insumos. E se isso for correto, então é possível que dentro em breve a negociação comercial ganhe nova prioridade. A economia está se desacelerando. Sinais de excessivo aquecimento e inflação têm levado os bancos centrais a elevarem taxas de juros pelo mundo afora. As dívidas dos americanos — do governo, das empresas e dos consumidores — estão impondo limites ao consumo. A China parece no limite da utilização de suas capacidades. Quando o comércio mundial começar a perder fôlego, a necessidade de novos acordos pode reaparecer. Se a economia esmorece, só a política e a diplomacia podem reestimular o comércio global. Essa seria uma boa resposta à desaceleração, mas não é a única possível. O mundo pode cair também numa onda protecionista, cujo resultado será menos crescimento e, talvez, mais recessão. A balança vai pender para um ou outro lado conforme decisões políticas a serem tomadas pelos governos e pela comunidade internacional. Como a história tem demonstrado, os políticos ora acertam, ora erram. Portanto, este é um momento delicado. E especialmente para o Brasil. Na falta do acordo global, cuja negociação está emperrada há bom tempo, os países têm assinado acordos bilaterais e regionais. O governo Lula deixou estes acordos de lado, apostando no maior. Vai acabar sem nada. Na verdade, com um Mercosul fazendo água.

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