A França e sua ‘malaise’

Basta passar alguns dias na França – e dialogar com algumas mentes brilhantes que esse país ainda produz – para perceber que nações, como indivíduos, também experimentam crises existenciais.

À sombra dos monumentos que tanto amamos, a sociedade francesa é assolada pelo título de uma das maiores obras de Gauguin: “De onde viemos? O que somos? Aonde vamos?”

Os franceses ressentem-se da dívida pública e desemprego que só aumentam. Dividem-se quanto à imigração do Magreb ou da Europa do Leste. Muitos não se reconhecem mais no país em que nasceram.

Jovens doutores não encontram emprego na iniciativa privada. Recorrem à mal remunerada colocação no desestimulante serviço público – totalmente ossificado pelos sindicatos.

Ademais de seus problemas internos, a França peleja com sua posição na União Europeia (UE). Desempenha, no mais das vezes, função de “sócio-júnior” em dinâmica cujo epicentro está em Berlim.

Os franceses ressentem-se da dívida pública e desemprego que só aumentam

Para fugir de papel cada vez mais coadjuvante, a França busca liderar o debate sobre o que seria uma “UE 2.0”. Na reunião de cúpula que começa nesta sexta (27) na Bélgica, François Hollande proporá nova estrutura de governança na UE com poderes acrescidos aos países membros da zona do euro.

A ideia de Hollande, que também vai de encontro a articulações do primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, permitiria a implementação de uma política social e industrial com base no conceito de empresas “campeãs europeias” – à semelhança da estratégia de nosso BNDES e seu (agora abandonado) favoritismo às campeãs nacionais.

Tal medida suscita problemas. Ela diminuiria a influência na comunidade de membros como o Reino Unido, que optaram por não integrar a zona do euro. Esse “novo desenvolvimentismo” europeu feriria potencialmente regras da OMC.

Criaria, de certo, novos obstáculos ao mega-acordo UE-EUA. Retardaria a já esgarçada agenda negociadora UE-Mercosul, cujo conclusão, mesmo sem as novas ideias de Hollande, não se cogita para 2014.

Resta ainda observar como a Alemanha, maior economia da região, reagirá à institucionalização de subsídios industriais para fortalecer conglomerados europeus. As competitivas empresas alemãs dispensam tal fortificante. Sua produtividade beneficiou-se nas últimas décadas da existência de moeda comum para o comércio intraeuropeu.

Berlim não deseja, ademais, estranhar-se com países que não aderiram à zona do euro. Quer ainda que os acordos com EUA e Mercosul saiam do papel.

Como parece correta a noção de que hoje nada se faz em Bruxelas sem a liderança alemã, resta saber como Hollande lidaria com mais uma iniciativa frustrada.

Aliás, a frustração com Hollande, detentor de abissais 18% de aprovação popular, muito contribui à atual ‘malaise’ francesa.

Ouvi de um editor do “Figaro”, o jornalão francês, que todo presidente de seu país, de De Gaulle a Sarkozy, sempre dispôs de inteligência abundante ou charme gálico. E que Hollande, mais impopular presidente da história da França, carece de ambos.

Fonte: Folha de S. Paulo, 27/6/2014

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