Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Fuga de elites

Até há pouco tempo, o Brasil parecia estar reequilibrando sua “balança de elites”.

Obviamente não trato aqui de elites como sinônimo dos que ocupam funções de elevada hierarquia burocrática. Tampouco dos que ascenderam ao status de alta riqueza pela rapinagem.

Nem mesmo de quem, ao longo das décadas, se valeu do patrimonialismo do Estado brasileiro para reforçar confortáveis posições oligopolistas.

Falo daquele grupo de indivíduos que, por sua liderança no campo do conhecimento e da vida empresarial, ou pela excelência em sua profissão, perfazem o grande depósito de talento de uma nação.

Quando tal estoque alinha-se com a construção do futuro, observa-se o fenômeno glorioso das “elites funcionais”.

Em 2010, numa visita que fez ao Brasil, a socialista Ségolène Royal dizia: “Para mim, o modelo de socialismo contemporâneo é Lula. O Brasil de Lula e Dilma é alternativa de esquerda à globalização. Aqui há emprego e esperança”.

Na superfície, o Brasil era padrão de crescimento com justiça social. Conseguira isso sem reformas estruturais, mas com “vontade política” – expressa numa reedição de nacionalismo econômico, substituição de importações e política externa “independente”.

Também nessa época, numa conversa em Paris com um editor de “Le Figaro”, o grande jornal conservador francês, ele me comentava suas impressões do Brasil: “Daqui enxergamos seu país como um novo ‘eldorado’. Está na contramão desse marasmo que experimentamos na Europa. Muitos jovens franceses certamente gostariam de morar lá”.

Já em 2011, durante a conferência sobre América Latina realizada anualmente pela Sloan, a escola de negócios do MIT, num painel intitulado “América Latina: uma perspectiva de Wall Street”, um dos participantes sugeria uma pronunciada inflexão. Em breve, dada a pujança econômica do Brasil, a sessão passaria a chamar-se “Uma perspectiva da Faria Lima”.

Ao final daquela conferência, muitos dos graduandos não queriam deixar o MIT e seguir para a tradicional tríade consultoria/bancos de investimentos/empresas de alta tecnologia. Queriam mesmo era fincar o pé no Brasil e em seu aparente dinamismo.

Há quatro anos, não eram poucas as reportagens dando conta de um refluxo de brasileiros para seu país. A crise nos EUA e na Europa e a elevada remuneração relativa em reais (ajudada pelo câmbio superapreciado) davam a impressão de que o Brasil entraria num quadro superavitário de talentos.

O Brasil está novamente tornando-se ponto de dispersão de elites

Sabemos à exaustão que o nacional-desenvolvimentismo, a “nova matriz econômica” e a diplomacia “altiva” enredaram o Brasil na armadilha do baixo crescimento e na escassa conectividade com os mercados mais dinâmicos do mundo. Como resultado, o Brasil está novamente tornando-se ponto de dispersão de elites.

É absolutamente legítimo pessoas – e empresas – decidirem emigrar em busca de conjunturas mais favoráveis para prosperar e viver. Contudo, esse fenômeno, no alvorecer de uma nova era do talento, é particularmente danoso à nação.

O caso da Colômbia– Há 20 anos, muitos dos indivíduos mais talentosos da Colômbia haviam deixado o país. A elite colombiana, atormentada por governos incompetentes (com os quais muitas vezes mancomunou-se), a “narcocracia”, as Farc e o consequente conflito civil, havia promovido sua diáspora para Madri ou Miami.

Hoje, com boa governança, políticas econômicas sólidas, acordos de comércio e investimento que interligam o país ao mundo e a vitória sobre a narcoguerrilha, a Colômbia já ultrapassou em termos de PIB a Argentina e converteu-se na segunda maior economia da América do Sul. Atualmente, é um chamariz de talentos.

Na Venezuela e na Argentina, o populismo e a erosão por ele causada na expectativa dos que querem ascender pelo trabalho duro e pelo mérito precipitaram verdadeira força centrífuga de elites.

Na Rússia, muitos dos jovens de até 25 anos de idade têm como ideal de vida emigrar para Nova York ou Londres. E as promissoras empresas start-up de base tecnológica – ricas em recursos humanos derivados do investimento científico que a Rússia ainda faz – estão cada vez mais deslocando-se para o Ocidente, em busca de menor instabilidade política sobre a esfera dos negócios.

Hoje, quando se fala num novo êxodo de talento no Brasil, emergem cenários desalentadores.

Algo está muito errado quando empresários brasileiros e suas companhias olham com interesse o Paraguai como país para produzir – e viver. Razões: custos de produção menores (entre eles o de energia) e impostos mais razoáveis.

Ou ainda quando empresários preferem pilotar suas companhias “a distância” após mudarem-se com suas famílias para Lisboa ou Miami.

Muitos dos brasileiros engajados em algum momento no Ciência sem Fronteiras ou em outros programas de intercâmbio tecnológico internacional estão desiludidos com as perspectiva de uma carreira no campo do conhecimento no Brasil.

Acreditávamos que o brain gain (ganho de cérebros) na segunda década dos anos 2000 superaria a brain drain (fuga de cérebros) ocasionada sobretudo pela falta de horizonte dos anos 1980.

Por isso, preocupa o volume cada vez mais alto das conversas em que, neste momento, muitas pessoas falam em deixar o Brasil – ou a ele não voltar. A disfuncionalidade do Estado brasileiro desencoraja e afugenta nosso melhor capital humano.

Alarmamo-nos com o impasse no ajuste fiscal, o desequilíbrio nas contas públicas, a saída de finanças, o isolamento comercial do Brasil no mundo.

No topo disso tudo, se há algo de que o país definitivamente não precisa é uma fuga de elites.

Fonte: Folha de S. Paulo, 4/11/2015

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