Fusões e fusões

Desde 2003, a economia brasileira vem sendo impulsionada pelo crescimento econômico dos principais parceiros comerciais e pela consequente subida dos preços médios das exportações. Isso aumenta a receita de divisas e atrai capitais para os setores mais lucrativos. Amplia-se, ainda, o acesso a produtos industrializados cada vez mais baratos, especialmente os oriundos da Ásia. Ou seja, sobem os termos de troca (isto é, os preços de exportações, relativamente aos de importações), atraindo recursos do resto da economia para a produção de commodities, aumentando as exportações destas, as importações de industrializados e, ao final, a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Esse é o contexto favorável em que se insere a recente fusão Perdigão-Sadia, de empresas que atuam na área de commodities.

Em setores em que não é possível a entrada de produtos concorrentes, como o setor de serviços em geral, seguem-se pressões inflacionárias e aumento de lucratividade. Dada a taxa de câmbio, o resultado líquido sobre a inflação depende do balanceamento das pressões altistas nos setores de commodities e de serviços, com o efeito favorável da queda dos preços dos industrializados. O câmbio se apreciará se o efeito nos preços de serviços for maior do que na média dos preços dos produtos comercializáveis com o exterior. Aqui se insere a polêmica fusão Pão de Açúcar-Carrefour.

Pelo modelo de expansão dos gastos correntes e apropriação do orçamento público em vigor, o governo brasileiro estica a mola do crescimento da demanda agregada interna, tributando cada vez mais e transferindo somas crescentes de recursos para o consumo de certos segmentos. Uns, prioritários; outros, não. O peso do gasto assistencial novo, ausente em 1987, só seria responsável por 10% do total despendido em 2010, enquanto o gasto com inativos e pensionistas da União e com benefícios do INSS acima de um salário mínimo aumentavam 15 pontos porcentuais. A manutenção do peso destes últimos significaria a absorção plena do aumento dos gastos assistenciais prioritários e a sobra de recursos equivalentes a 5% do gasto total. Boa parte do gasto público, conforme estudos disponíveis, tem qualidade discutível. Jogar dinheiro público em fusões, como no caso Pão de Açúcar-Carrefour, é mais um exemplo disso.

Dada a taxa de câmbio, a demanda crescente é atendida sem pressões inflacionárias nos setores que comercializam com o exterior (com preços determinados lá fora), especialmente por importações, mas enfrenta dificuldades nos demais setores, como na área de serviços e outros com as mesmas características, onde os gargalos de suprimento são visíveis (vejam os aeroportos e outros que dependem dos abandonados investimentos públicos) e não se pode internar produtos substitutos.

Os preços dos setores em que não há comercialização com o exterior são, então, pressionados para cima, e recursos de todos os demais setores são atraídos para estes. Com preços externos em queda, as importações industriais é que atendem ao crescimento da demanda, ao mesmo tempo que se reduz a produção e se transferem recursos para a área de serviços, que só pode atender à maior demanda por meio da expansão da produção interna.

Quando se juntam os dois lados – expansão da demanda de lá e da demanda de cá -, os efeitos finais sobre a inflação e a taxa de câmbio dependem do balanceamento dos vários impactos acima citados, mas já se sabe o que aconteceu no caso brasileiro, como seria previsível: pressão inflacionária, apreciação cambial, atração de recursos para os setores de commodities e serviços, encolhimento da indústria de transformação e aumento do déficit externo em conta corrente.

É só ver os dados. E é estranhável que a indústria não direcione suas baterias antidesindustrialização para o alvo certo, ou seja, o excessivo gasto público corrente, que pressiona a demanda e as importações.

A discussão em torno da fusão Pão de Açúcar-Carrefour, envolvendo aporte de recursos da BNDESPar no negócio, ou seja, do contribuinte, trouxe à baila a dúvida sobre a desejabilidade de usar dinheiro público tão escasso neste tipo de operação.

Vale a pena comparar aspectos que têm saído na mídia sobre essa fusão e a fusão Perdigão-Sadia. Nesta, não há dinheiro público envolvido no negócio, e se trata de uma empresa da área de commodities, fortemente integrada com o exterior. Isto é, em que é mais difícil prejudicar o consumidor via maior poder de mercado no Brasil, pois a entrada de substitutos externos pode ser a resposta à tentativa de subidas indevidas de preços. Em adição, tratou-se do salvamento de empregos de uma empresa em dificuldades (Sadia).

Já o caso da fusão Pão de Açúcar-Carrefour, além de envolver recursos públicos, se insere no protegido setor de serviços, onde a falta de competição externa recomenda uma maior atenção da política de defesa econômica. Ou seja, existem fusões e fusões no esteio do processo de crescimento do Brasil. A validade e a necessidade delas dependem de uma análise econômica mais profunda.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 11/07/2011

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