O futuro sombrio que nos aguarda

João Luiz Mauad

Há quatro anos, depois da eleição de Dilma Rousseff, me pediram para fazer uma previsão de como seria a economia durante o governo que se iniciaria dali a pouco. Escrevi então este artigo com as minhas avaliações sobre o futuro que nos aguardava naquele primeiro mandato. Lendo-o agora, acho que acertei mais do que errei. Abaixo, seguem as minhas previsões para o próximo mandato.

A inflação já começa a sair de controle de forma bastante nítida. O realinhamento das tarifas públicas – principalmente energia elétrica e combustíveis -, congeladas demagogicamente durante o ano eleitoral, combinado com a forte alta do dólar deverão impulsionar os índices de preços a patamares que não se vêem há anos, ainda que o Banco Central continue, como previsto, a aumentar a taxa de juros (SELIC). Aliás, eis aqui um dos paradoxos da atual política econômica. Enquanto Joaquim Levy se esmera numa tarefa hercúlea para tentar cortar alguns gastos durante o dia, o Banco Central – tal qual uma Penélope – aumenta os juros na calada da noite. No fim das contas, malgrado devamos ter um superávit primário maior que no ano passado, não é de todo improvável que teremos um déficit fiscal nominal também maior.

Por outro lado, a Operação Lava-Jato – que além de manter presos os cabeças das principais empreiteiras do país, as torna provisoriamente impedidas de contratar com a administração pública – deverá ocasionar uma retração fortíssima nos setores da construção civil e de infraestrutura, que têm como característica serem intensivos de mão-de-obra. Várias são as empreiteiras que já começam a demitir pessoal e atrasar pagamentos a fornecedores e bancos.

Vale destacar que, graças a uma política governamental estúpida de promoção de campeões nacionais, o setor de infraestrutura é altamente concentrado no Brasil, um oligopólio nas mãos de meia-dúzia de mega empresas cuja eventual bancarrota afetará sobremaneira toda a economia, já que, atrelado a ele, direta ou indiretamente, encontra-se boa parte da cadeia produtiva, inclusive o setor bancário, que, pelo menos até agora, tem passado incólume pelas últimas crises.

Pelo menos durante os próximos dois anos, seremos vítimas de uma combinação nefasta de inflação alta e estagnação (senão recessão) prolongada

Isso sem falar na redução dos investimentos da Petrobras, o carro-chefe (talvez fosse melhor dizer carro alegórico) da economia brasileira, responsável por muitas das grandes obras em andamento no país, algumas das quais já foram descontinuadas, enquanto outras estão em processo de paralisação. Para piorar o quadro, nosso mercado é caracteristicamente fechado, protecionista mesmo, o que dificultará a contratação de empresas estrangeiras em curto prazo, seja para substituir as grandes empreiteiras, seja para bancar os investimentos que a Petrobras não terá como fazer. Escurecendo um pouco mais horizonte, não podemos esquecer o provável rebaixamento do rating brasileiro para grau especulativo – o rating da Petrobras acaba de ser rebaixado pela Agência Moody’s -, o que tornaria ainda mais complicada a atração de investimentos estrangeiros diretos (IED).

Outro setor importante na formação do PIB que já sofre com a retração das vendas (mantidas artificialmente altas durante um bom tempo graças à ajudinha do governo) é o automobilístico, onde já pipocam greves e férias coletivas. Pelo menos por enquanto, em razão do esforço de Levy para cortar gastos, não é prudente prever desonerações tributárias para incentivar uma nova onda de “demanda artificial” nesse segmento.

Devido à alta dos juros e à expectativa de uma recessão, é provável que aconteça alguma redução da oferta de crédito ao consumidor, que se tornará, no mínimo, mais seletivo, causando alguma retração no consumo das famílias, afetando especialmente o comércio varejista e os serviços, responsáveis pelo maior peso do PIB atualmente – nos últimos anos, era o setor de serviços, juntamente com a agricultura, que vinha compensando o fraco desempenho da indústria.

Ademais, é de se duvidar da manutenção de Joaquim Levy no cargo de ministro da fazenda por muito tempo. Com a exacerbação do confronto político e a eclosão das manifestações de rua contra o governo, principalmente diante de um quadro econômico recessivo, é bem capaz de Dilma – a vossa presidenta economista – querer tomar as rédeas da política econômica novamente para si e proclamar a volta do desenvolvimentismo caboclo, digo, “unicampista”, pelo qual alguns próceres petistas mantêm uma veneração quase dogmática. Aí, meus caros, seja o que Deus quiser… Some-se a tudo isso os nada improváveis racionamentos de energia e água (este último restrito à Região Sudeste), e estamos diante de uma tempestade perfeita. Infelizmente será uma tempestade apenas metafórica e não ajudará em nada a melhorar os níveis dos nossos reservatórios.

Em resumo, não seria exagero prever que, pelo menos durante os próximos dois anos – graças às políticas populistas e demagógicas executadas irresponsavelmente nos últimos dez -, seremos vítimas de uma combinação nefasta de inflação alta e estagnação (senão recessão) prolongada. Portanto, minha sugestão aos brasileiros precavidos é que se preparem para a carestia e o desemprego, além de muito confronto nas ruas, pois o truculento Lula já garantiu que o bolivarianismo tupiniquim não largará o osso sem rosnar.

Espero sinceramente estar equivocado, mas acho difícil.

Fonte: Instituto Liberal, 25/2/2015

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