A generalizada ineficiência brasileira

*com Renato Fragelli

O Brasil passou no pós-guerra por uma notável mudança setorial que teve efeitos expressivos sobre o crescimento econômico. Esse processo se esgotou em meados dos anos oitenta. Não há evidência de que mudanças na composição setorial do país em direção a setores “modernos” teriam hoje impactos significativos no produto. O problema é que todos os setores da economia são muito pouco produtivos. A ineficiência é generalizada.

O dilema da baixa produtividade
Entre 1950 e 1980 o Brasil experimentou um rápido aumento de seu produto por trabalhador, em torno de 4,5% ao ano. Embora a acumulação de capital tenha sido significativa no período, está bem estabelecido entre os pesquisadores que parte expressiva daquele crescimento adveio da elevação geral da eficiência produtiva da economia – Produtividade Total dos Fatores (PTF), no jargão dos economistas. Dependendo da metodologia utilizada, a maior PTF explicaria entre 45% a 70% do crescimento naqueles 31 anos.

Uma parte expressiva desse crescimento está ligada à transformação estrutural por que passou a economia brasileira, com redução da importância da agricultura, um setor então pouco produtivo, acompanhada de aumento da participação de setores urbanos mais produtivos, como indústria e serviços. Em pesquisa recente, Ferreira e Silva (BEMJ, 2015) estimam que a transformação estrutural tenha respondido por 45% do crescimento econômico no período. Mas trata-se de um ganho já alcançado, que não poderá ser repetido.

O produto por trabalhador brasileiro e seu impacto na economia
Em contraste, de 1980 até 2009, o produto por trabalhador brasileiro caiu em torno de 0,5% ao ano, enquanto a PTF diminuiu cerca de 2% ao ano. Isto significa que boa parte do esforço de acumulação de fatores – via melhoria da educação e acúmulo de capital físico – se perdeu devido à piora na eficiência geral da economia. No final do período, a baixa PTF explicava mais da metade da diferença de produtividade entre trabalhadores brasileiros e a dos países líderes. Dito de outra forma: o Brasil é pobre não tanto por insuficiência de capital físico, mas porque organiza muito mal sua produção.

Uma visão alternativa sustenta que, após um primeiro impulso positivo, mudanças setoriais teriam afetado negativamente o crescimento. Isto porque os trabalhadores majoritariamente já empregados em serviços e manufaturas teriam sido alocados em setores ou subsetores “errados”, isto é, menos produtivos e tecnologicamente atrasados. Sob essa conjectura, a composição setorial brasileira estaria afetando negativamente a produtividade agregada do país.

Equívocos na política econômica
O diagnóstico acima está na raiz de políticas industriais destinadas a promover setores “estratégicos” ou “dinâmicos”, como as implantadas sob a Nova Matriz Econômica. Seus defensores sustentam que, mediante coordenação do Estado, boa parte da mão-de-obra ocupada em setores tradicionais e pouco produtivos poderia ser redirecionada a setores modernos e mais produtivos, aproximando a composição setorial brasileira daquela observada nos países ricos. Isto levaria a um notável aumento da produtividade e da renda brasileira.

Tal visão, entretanto, tem fraca aderência aos dados. Essa hipótese foi testada em artigo recente de Veloso, Matos, Ferreira e Coelho (“O Brasil em comparações internacionais de produtividade: uma análise setorial”, a ser publicado em livro editado pelo IBRE-FGV). Utilizando dados de 35 setores e 39 países, em sua maioria ricos ou de renda média, o artigo tenta identificar o que melhor explica a baixa produtividade brasileira. Esta decorreria do efeito composição – a mão de obra estaria concentrada em setores pouco produtivos -, ou do efeito nível – a produtividade seria baixa em todos os setores.

Em dois exercícios contrafactuais avalia-se a importância de cada efeito. O efeito composição foi medido trocando-se o peso de cada setor no produto brasileiro pelas participações correspondentes nos EUA, mantendo-se constante a produtividade de cada setor no Brasil. O efeito nível foi calculado substituindo-se a produtividade de cada setor no Brasil pela produtividade nos EUA, mantendo-se inalteradas as participações setoriais observadas no Brasil. A tabela abaixo resume os resultados calculados:

produtividade-trabalho

Em 2009 a produtividade do trabalho brasileira, calculada partir da base de dados da Socio Economic Accounts, era somente 16% da norte-americana. Quando se avalia o efeito composição, a produtividade brasileira salta para 27% da americana, um aumento significativo, mas que ainda deixa por explicar 73% da diferença de produtividade entre os dois países. A avaliação do efeito nível mostra um salto da produtividade agregada para 87% da americana, restando apenas 13% não explicado. Resultado semelhante se observa restringindo-se a análise ao setor de serviços ou à indústria de transformação.

Em outras palavras, os exercícios sugerem que o atraso brasileiro não se deva ao fato de o país ter se especializado em setores pouco produtivos, mas à dura realidade de que, em todos setores e subsetores, a produtividade do trabalhador brasileiro é muito inferior à observada nos Estados Unidos e demais países desenvolvidos.

Conclui-se que políticas que privilegiam setores específicos terão efeito mínimo sobre a produtividade e renda agregada, servindo apenas para transferir recursos públicos escassos a empresários bem relacionados em Brasília. Diante da generalizada baixa eficiência, somente políticas que atinjam todos os setores de forma horizontal – por exemplo, melhoria da educação, menores barreiras ao comércio de bens e serviços, reforma e simplificação tributária, reformas institucionais que aprimorem o ambiente de negócios, entre outras – poderão promover o crescimento sustentável.

Fonte: “Valor econômico”, 18 de janeiro de 2017.

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