Por Maria Lucia Victor Barbosa, socióloga.

Fala-se muito no Brasil em educação como salvação nacional. É certo que o conhecimento, adquirido através da educação, compõe um dos pilares do desenvolvimento juntamente com os poderes econômico, político e bélico de cada país. Entretanto, não basta um diploma, pois é necessário que esse instrumento habilite para vida. Não são suficientes testes, onde um x colocado aleatoriamente é muitas vezes simulacro de aprendizado. É danoso para o próprio aluno passar para série mais adiantada sem estar preparado. É totalmente errado não se incentivar a leitura. É certo transmitir conhecimento através da repetição do que já foi adquirido intelectualmente pelo homem, mas se não houver criação e recriação do saber, continuaremos atrasados em relação aos países do Primeiro Mundo. Não basta copiar, é necessário raciocinar.

Educação é também algo mais complexo do que aquilo que se adquire na escola. Começa na família. Significa o aprendizado de valores. No grupo familiar o indivíduo inicia sua distinção entre certo e errado, e a escola deve dar seguimento à “socialização” que os pais transmitiram ou devem transmitir.

Mais tarde o jovem interagirá de forma mais expandida com a sociedade. Freqüentará amigos, encontrará novos grupos no trabalho, na igreja, no seu entorno de modo geral. A influência social será constante sobre sua mente ávida de exemplos a seguir, sua necessidade de caminhos a descortinar. Presa fácil das influências, ele não será imune ao que seus sentidos e percepções alcançarem. A TV, a propaganda, os modismos, as drogas, a violência, a falta de oportunidade de trabalho, o desrespeito à vida, a ausência de valores que o guiem, a desagregação familiar, a impunidade, serão fenômenos mais ou menos maléficos conforme for sólida ou não a educação recebida no lar e depois na escola.

A criança e o jovem se miram no espelho de sua realidade e o refletem. E aqui aparece a dificuldade de se educar, pois como é difícil aos pais dizerem aos filhos no Brasil de hoje: “Sejam honestos”. Não mintam”. Busquem o seu bem e o dos outros através de condutas éticas”. “Esforcem-se”. “Estudem”. Conquistem uma profissão, pois através dela terão a gratificação social em forma de empregos e remunerações”. “Façam-se respeitar através de sua conduta irrepreensível”. Não transijam nunca com as pequenas trapaças, pois elas os farão sucumbir às grandes. Prezem sua pátria e os símbolos nacionais, pois a pátria é nosso lar ampliado. Respeitem as autoridades constituídas, pois delas vêm os exemplos de honradez, desprendimento e busca de bem comum.

Imagine-se tentar transmitir esses valores aos jovens do Brasil de agora. Eles haveriam de considerar tudo hilário, se não achassem que seus pais ou professores tinham enlouquecido. Afinal, o que assiste a geração atual?

Dirão alguns que o mesmo que sempre se assistiu, especialmente na esfera política. Que corrupção por corrupção, sempre fomos corruptos. Que as leis nunca funcionaram no país do dá-se-um-jeito. Violência sempre houve, assim como a “arte” de passar os outros para trás. Nunca nos faltou malandragem nem comportamentos desonestos tanto na esfera privada quanto pública.

Tudo isso é verdade e todos estão cansados de saber. Contudo, o que causa profundo mal-estar aos verdadeiros educadores é a podridão moral, que vinda dos Poderes constituídos se exacerbou de forma nunca vista nesse país, contaminando toda sociedade. Se o péssimo exemplo vem de cima, o que esperar dos debaixo? Para que esforço e honestidade se estão se dando bem mensaleiros, sanguessugas, golpistas, malandros que se safam facilmente de CPIs, de operações policiais, como esta última e estarrecedora Operação Navalha? Pior. Os transgressores não estão nas favelas ou bairros pobres, mas nos palácios. Nivelam-se na bandalheira, partidos políticos, deputados, senadores, ministros, juizes, pessoas em cargos importantes. E a tendência é o agravamento de tal situação por três motivos principais: falta de oposições; aumento da impunidade; a crença de que o presidente da República não é o responsável em última instância pelo que acontece em seu governo, o que levará a ele e aos seus companheiros se perpetuarem no poder incidindo nas mesmas práticas.

Se a corrupção impede o progresso do país e lesa o povo, outro grande malefício desse governo é ser responsável pela perda de pelo menos uma geração em termos de valores. Num país onde as mais altas autoridades se nivelam por baixo e se igualam a trambiqueiros, sem que nenhuma punição lhe seja aplicada, cada um faz o que quer: da interdição de estradas à quebradeira do Congresso, da destruição de terras produtivas à invasão de hidrelétricas. E o dinheiro público que poderia estar sendo aplicado, inclusive, para a melhoria da Educação, se perde nas badernas e nos fabulosos lucros dos “donos do poder”.

Por isso mesmo, e apesar de todas as dificuldades, mais do que nunca é preciso educar as novas gerações. Está na hora de começarmos a discutir como fazê-lo. E, sobretudo, é preciso saber como fazê-lo.

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2 comments

  1. Gerson Alves de Souza

    Esse texto deveria ter sido escrito há, pelo menos, uns 60 anos…talvez ele pudesse ter salvado algumas criancinhas de então, tais como: Daniel Dantas, Marcos Valério, FHC, Zé Pedágio, Yeda Crucius, Heráclito Fortes, Arthur Virgílio, Tasso Jereissati, Salvatore Caciolla (acho que não atingiria este, mas…), Carlinhos Rodenburg, Gilmar Dantas, Ali Mazloum, Efraim Moraes, ACM Filho e neto (este, por hereditariedade), Renan Calheiros, os donos dos bancos Marka e Fontcindam, o dono da Alston, os donos das empreiteiras Camargo Correa e Olderbrecht, o Luiz Mendonça de Barros, o Sérgio Motta (estaria no Paraíso), o Pérsio Arida, os donos da Das Lu, o Lair Fest (aqui no RS), e tantas outras criancinhas que não aparecem nos noticiários do PIG, por puro encobrimento interesseiro e influente dos canalhas de colarinho branco e de lindos e sensuais olhos azuis (ou verdes)…
    Que pena…um desperdício de moral e bons costumes!

  2. Almeida

    Nota-se que o Sr. Gerson é leitor assíduo do site, hehehe. Ainda tens salvação, Gerson.

    Mais leitura, menos complexos de inferioridade.