A geração quântica

Está na moda, hoje em dia, citar a geração Y, ou seja, aquela formada pelos jovens que nasceram na década de 80 ou até meados dos anos 90. Em média, 30 anos de idade. Uma das principais características dessa geração é a pressa, a chamada inimiga da perfeição. Nascidos no auge da Era da Informação, esses jovens começam a assumir o comando de empresas importantes com a convicção de que é preciso fazer tudo depressa. Não é bem assim.

Essa “geração quântica”, que pretende trabalhar com máquinas ultrarrápidas, capazes de produzir bits quânticos(qbits), sabe que pode operar com uma precisão acima de 99%. O computador quântico em silício será superpreciso. Isso tudo, que configura o mundo maravilhoso da alta tecnologia, por si só, pode garantir um ensino de qualidade?

O povo brasileiro, através do voto, independentemente de candidaturas, demonstra que deseja mudanças

Aí é que a coisa pega. O operador das máquinas, que cometem apenas um erro em cada dez mil operações quânticas, precisa estar muito bem preparado. Não basta o discurso. Queremos, na verdade, gestões inovadoras — e não essa orientação defasada da forma com que são lançados no mercado os nossos jovens administradores. Com a mentalidade retrógrada de outros tempos, salvo honrosas exceções.

A educação brasileira parece conectada à sismologia. Explico: cada providência necessária pode provocar um tremor de terra. Deseja-se melhorar a qualidade do ensino. Com que professores e especialistas? Fala-se muito em consertar o ensino médio. Com esse currículo que aí está? Vamos construir seis mil creches. Onde e com que dinheiro? Anuncia-se o tempo integral em todos os programas de todos os candidatos. Como??? Temos cerca de 200 mil escolas e nem 10% delas dispõem de tempo integral. Isso se faz por decreto?

O povo brasileiro, através do voto, independentemente de candidaturas, demonstra que deseja mudanças. Aliás, o próprio Congresso Nacional está mudando quase 50% do seu efetivo. Já é uma boa prova. Mas isso tem que ser feito de modo consciente, não ao sabor suspeito de interesses políticos partidários. Explora-se pouco a palavra tão eufônica que é meritocracia.

Querem um outro exemplo bem elucidativo? É o caso do uso de computadores (ou seus similares) nas escolas brasileiras. Quando tudo levava a crer que seria um elemento auxiliar do professor, para melhor esclarecer as dúvidas dos alunos, eis que a máquina tem um emprego prioritário nos jogos, nem sempre educativos, expelidos pelo mercado. A gamificação é uma realidade, mas é preciso que os seus jogos tenham serventia na apreensão de conhecimentos, e não na distribuição farta de violência desenfreada.

Fonte: O Globo, 16/10/2014.

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