Gerência política

Se não houvesse outro motivo, tudo indica que o estilo trator da nova chefe da Casa Civil seria razão suficiente para que o governo reforce suas relações institucionais, pondo no ministério algum político de mais peso e habilidade de negociação do que os exibidos nestes cinco meses pelo ministro Luiz Sérgio.

Os relatos dos que conviveram com Gleisi Hoffmann no Senado confirmam que ela realmente é “a Dilma da Dilma”, sobretudo pela maneira áspera com que interagia com os colegas.

Aquela suavidade de falar esconderia, segundo esses relatos, uma atitude arrogante no trato com a divergência que lembra muito relatos sobre a atuação da própria presidente Dilma quando coordenava a ação dos diversos ministérios na Casa Civil.

Desse ponto de vista, o governo parece que estará bem servido, pois os principais programas estão precisando de quem os gerencie de perto e com energia.

Mas a questão central hoje é de gerência política, sem o que a ampla base partidária continuará travando a ação governamental, paralisando a administração e criando embaraços políticos ao governo.

Mesmo tendo atribuído sua escolha a uma homenagem ao Congresso, a senadora licenciada Gleisi Hoffmann já anunciou que sua tarefa será de gestão interna do governo, na coordenação de diversos programas interministeriais.

Alguns desses grupos terão à frente ninguém menos que o vice-presidente Michel Temer, num sinal de que o governo despertou para a necessidade de incluir mais o PMDB em seu processo decisório.

A desconfiança recíproca é tamanha, porém, que no PMDB se perguntava se o fato de colocar Temer para coordenar um programa de fronteiras significa a vontade da presidente de tê-lo mais dentro do governo ou mais longe de Brasília.

Além do mais, a especialidade do vice não tem a ver com fronteiras físicas, mas com fronteiras políticas.

De fato, o PMDB não está confortável com o aumento de poder petista dentro do governo, já que a substituição de Palocci por Gleisi não foi uma simples troca de petistas, mas o deslocamento para o centro do governo de uma política dos quadros partidários, enquanto Palocci deixou de ser um petista originário da máquina partidária para se tornar com o tempo um representante do lulismo, que dá mais importância ao pragmatismo da manutenção do poder do que às disputas partidárias.

Desse ponto de vista, Palocci era mais flexível na relação com os aliados, especialmente com o PMDB, e menos propenso a lutar pelos interesses petistas imediatos.

Quando entrou em rota de colisão com o vice Michel Temer, ele o fez por pressão da presidente Dilma, que, segundo consta, ficou ouvindo no viva-voz Palocci ameaçar Temer com a demissão de todos os ministros peemedebistas.

Quer dizer, quando deixou de ser o político maneiroso para se transformar num trator, por determinação presidencial, Palocci perdeu a parada política para Temer, que gritou com ele e ameaçou retirar todos os ministros do PMDB do governo em protesto ao tratamento recebido.

Acontece que Temer também tinha vários correligionários ouvindo no viva-voz a discussão, e esse embate em tempo real acabou levando o confronto entre governo e PMDB a um impasse que não era do interesse de ninguém.

Não foi por acaso, portanto, que o PMDB como partido uniu-se na defesa da permanência de Palocci, pois identificava nele um político cordial que dava valor às alianças políticas, em vez de ser um petista ortodoxo, como a nova ministra Gleisi Hoffmann, um quadro petista cuja tarefa prioritária no Senado foi a defesa do governo, sem condicionantes.

Sua indicação corresponde também ao fortalecimento do PT, e não foi à toa que ontem o ex-ministro José Dirceu recebeu ministros e políticos em Brasília, identificado como o canal de influência política fortalecido com o aumento de poder petista no governo. (Por falar nisso, quanto não estará valendo hoje uma “consultoria” de Dirceu?).

Com o PT fortalecido no Ministério, alas do PMDB tentam emplacar um correligionário nas Relações Institucionais, o que sob Dilma parece mais difícil do que sob Lula, que já colocou no mesmo lugar deputados do PTB (José Mucio e Walfrido Mares Guia) e do PCdoB (Aldo Rabelo).

Houve até quem pensasse que o próprio Michel Temer poderia assumir o cargo, o que seria uma temeridade a pôr em risco a autoridade natural do vice eleito.

Também Nelson Jobim chegou a ser cogitado nas especulações, mas essa seria uma mexida complicada no xadrez político, já que ele está bem entrosado no Ministério da Defesa, uma posição delicada para ser preenchida.

Mas Jobim teria a vantagem de, sendo do PMDB, ter trânsito muito bom tanto na máquina partidária petista — não esquecer que ele teve a ousadia de pôr José Genoino como seu assessor especial — como com a oposição.

Seu maior problema é mesmo no PMDB, onde nunca foi íntimo da cúpula do partido.

O mais provável é que o ministro Luiz Sérgio permaneça no cargo por mais algum tempo, por uma razão singela: a presidente Dilma não quer tirar um ministro que a chamada mídia está criticando, depois de ter tirado seu principal assessor em decorrência de denúncias dessa mesma mídia.

Mas como Luiz Sérgio, um protegido de José Dirceu — outro obstáculo à sua substituição —, é muito fraco para assumir essa coordenação política ampliada pela saída de Palocci, a realidade se imporá com o tempo. A crise continuará até que se ponha na coordenação política um ministro de peso reconhecido por aliados e oposição.

Fonte: O Globo, 09/06/2011

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