“Aqueles que abandonariam a liberdade essencial para comprar um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.” (Benjamin Franklin)

Nas últimas décadas, centenas de milhões de chineses saíram da miséria. O crescimento econômico tem sido espetacular. Muitas pessoas ficaram encantadas com o “modelo chinês”. Faz-se necessário, portanto, elucidar alguns pontos importantes, separar o joio do trigo quando se trata de China. Há muito joio ainda no meio dos trigos e, para piorar, algumas pessoas creditam justamente o que há de podre pelo “sucesso” chinês.

De forma bastante reduzida, a China entrou numa era de mais prosperidade (ou menos miséria) quando Deng Xiaoping abandonou parte das receitas socialistas de antes, alegando que o importante não era a cor do gato, mas sim que ele pegasse o rato. Este pragmatismo fez com que o poder central fosse relativamente reduzido em prol de mais liberdade econômica, ainda que muito pouca no geral. Mas bastou esta mudança para colocar em ritmo acelerado a máquina de exportações chinesa, calcada na mão-de-obra barata. A China entrou para a OMC em 2001, e aproveitou a onda da globalização como poucos. A parcela das exportações no PIB chinês quase dobrou em poucos anos, saindo de 20% em 2001 para 36% em 2007.

Dito de outra forma, a China vem experimentando a sua tardia “revolução industrial”, com forte foco mercantilista. Seu objetivo tem sido “conquistar” o mundo por meio das exportações baratas, graças ao gigantesco contingente de trabalhadores. Algo como 750 milhões de chineses ainda vivem nas pobres zonas rurais, em condições precárias. Os ganhos de produtividade com a migração desses trabalhadores para a indústria permitem a manutenção da competitividade chinesa mundo afora, especialmente em produtos intensivos em mão-de-obra. A simbiose tem sido interessante para todos, já que os produtos baratos chineses seguram os índices de preços finais aos consumidores nos países desenvolvidos.

Mas este modelo apresenta inúmeras falhas, que podem expor seus pilares insustentáveis com o tempo. O câmbio não é livre na China, sendo artificialmente controlado pelo governo para permanecer desvalorizado. O crescimento da base monetária tem criado pressões inflacionárias cada vez maiores. O crédito é controlado basicamente por quatro bancos estatais, com critérios políticos em seus empréstimos. O foco excessivo no crescimento do PIB tem feito com que governantes locais estimulem investimentos claramente ruins, apenas para apresentar bons números agregados. Até algumas cidades “fantasmas” já existem na China, com novas casas construídas, mas nenhum morador. O meio-ambiente acaba totalmente ignorado, e as cidades mais poluídas do mundo se encontram na China. A dependência dos consumidores de países mais ricos coloca a China numa situação frágil caso não haja crescimento mundial nos próximos anos. O risco protecionista é uma espada de Dâmocles para o mercantilismo chinês.

Esses são apenas alguns problemas e riscos para a China na próxima década. Há outro ponto que jamais deveria ser ignorado por todos aqueles que valorizam a liberdade: a China ainda vive sob uma ditadura. É verdade que o crescimento exponencial da classe média coloca pressão por mais liberdade civil no país, mas a reação do governo é igualmente forte. O PCC não pretende largar o osso facilmente. O massacre na Praça da Paz Celestial, em 1989, ainda arde na memória de muitos. Ninguém sabe até onde o governo estaria disposto a ir atualmente para preservar seu poder, mas o medo continua dominando muitas pessoas. E é nesse contexto que a “anárquica” internet precisa ser controlada.

Governo algum gosta da ampla liberdade de expressão e imprensa. As críticas, a exposição de fatos incômodos, a disseminação de mais conhecimento e informação, tudo isso representa uma ameaça aos governantes. A internet é a mais nova e potente arma em prol da liberdade e, por isso, governantes do mundo todo pensam numa forma de controlá-la. Claro que esta tarefa fica muito mais fácil sob uma ditadura. Em Cuba, a internet é item de luxo para poucos, além de corajosos clandestinos que se arriscam para mostrar a realidade da ilha presídio. Na Venezuela, o caudilho Hugo Chávez já declarou que pretende controlar a internet. Na China não seria diferente. Acontece que a tirania chinesa encontrou um obstáculo: a ética do maior site de pesquisas do mundo.

O debate sobre o que fazer em relação à presença na China tem dominado a agenda dos principais executivos da Google, desde que o governo intensificou a censura na internet. Sergey Brin, o bilionário fundador da empresa, com apenas 36 anos, resolveu comprar uma briga com o regime autoritário chinês. Seus pais tiveram que fugir com ele da União Soviética, justamente por não suportarem mais viver sob uma ditadura comunista. Seu pai valoriza a liberdade de buscar seus “próprios sonhos de empreendimento”, segundo Brin. O Google representa uma fantástica ferramenta no auxílio de milhões de pessoas buscando justamente isso. É uma estupenda conquista do empreendedorismo, do livre mercado.

Para todos aqueles que insistem em repetir o mantra marxista de que o poder está no capital, o caso da guerra entre Google e governo chinês é sintomático. O Google é uma empresa com cerca de US$ 180 bilhões de valor de mercado. Entretanto, parece impotente diante do poder do governo chinês. É a luta entre Davi e Golias. Na Rússia, o mais rico dos oligarcas foi esmagado em poucas semanas pelo Kremlin de Putin, quando se mostrou interessado pela política do país. Quando o governo concentra tanto poder assim, qualquer empresário é um simples refém seu.

Sergey Brin disse que espera a liberalização da internet na China como solução de longo prazo para o impasse. Todos aqueles que valorizam a liberdade torcem pelo mesmo resultado. Mas o realismo nos faz crer que a luta será árdua, desigual, e que o governo chinês conta com ampla vantagem no momento. Preservar a liberdade é uma tarefa hercúlea neste mundo repleto de autoritarismo. Mas é uma luta que compensa. Não desejamos mártires que sacrifiquem tudo por este ideal. Só que não deixa de ser estimulante ver uma empresa deste porte disposta a sacrificar uma fortuna em receitas, por compreender que ultrapassaram seu “limite de conforto”. Na batalha entre Google e governo chinês, entre capital e governo, entre empreendedor e parasita, entre liberdade e tirania, não resta a menor sombra de dúvida de qual partido tomar.

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