Autor Convidado: Edson Ronaldo Nascimento

As organizações do voluntariado e da solidariedade questionam-se na atualidade sobre o papel do dinheiro e das finanças nas relações sociais. É inegável que o desenvolvimento social individual e dos grupos esta em estrita relação com o dinheiro e as atividades humanas. Percebe-se, por outro lado, a necessidade de que a produção da riqueza e sua distribuição seja fundamentada em valores mais sociais do que sobre o imperativo da eficiência e do lucro. Nasce então a idéia de criar um banco novo, com uma filosofia nova; um banco que seja um ponto de encontro entre os poupadores que partilham a responsabilidade social do próprio dinheiro em relação às realidades socioeconômicas, e que acreditam ser possível lutar pela realização do bem comum. Essa nova exigência não é tão nova, porque é um fundamento básico da doutrina social cristã e que já foi aplicada nas Caixas Populares, fundadas pelas Igrejas em vários países europeus, no fim do século XIX e começo do século XX. Na prática, a poupança e os juros conseqüentes, confiados aos bancos, salvo o direito do poupador, devem ser transferidos a pessoas ou entidades que precisam para desenvolver projetos de atividades econômicas e serviços sociais A poupança, portanto, torna-se ética, porque sua aplicação contribui para criar premissas que construirão um futuro digno para pessoas até então excluídas do sistema capitalista. De fato, todos os bancos éticos consideram seus objetivos fundamentais a luta contra a exclusão dos grupos mais marginalizados, a salvaguarda dos bens ambientais e culturais, o desenvolvimento de projetos sociais através de financiamentos a baixo custo, a colaboração com grupos do Terceiro Mundo, com projetos sociais e de valorização de homens e mulheres que acreditam na solidariedade, a exclusão de financiamentos às empresas armamentistas e as que usam ou toleram o trabalho infantil. Os chamados “bancos éticos” buscam assim aumentar a autonomia, a capacidade competitiva e empresarial dos mais pobres, para melhorar a qualidade dos produtos e dos serviços. Essa filosofia vem sendo construída em Bangladesh, pelo Grameen Bank, desde 1976, mas, só entre os anos de 1995 e 1999, surgiram os bancos éticos que começaram a desafiar o sistema financeiro tradicional em vários países.Os bancos éticos propõem-se a dar crédito financeiro e concreto a valores, como a solidariedade humana, a atenção à marginalidade social, a conservação e desenvolvimento do meio ambiente e a favorecer o surgimento de um empresariado ligado ao respeito dos direitos de todos. Os pontos preferenciais desses bancos são: a) cooperação e fomento à reinserção social e ao mercado de trabalho de pessoas que se encontram em situações de inferioridade física, psíquica e social; b) solidariedade internacional para uma cooperação mais eficiente com os países do Terceiro Mundo; c) preservação do ambiente, através de atividades econômicas e educativas e da busca de tecnologias com o mínimo impacto ambiental e de novos materiais ecológicos; d) educação e formação de pessoas em busca de uma profissão ou de uma requalificação profissional; e) saúde com atividades de prevenção e educação e oferecimento de serviços não contemplados na estrutura sanitária pública. O Grameen Bank foi fundado em 1976, por Mohammad Yunus. É um banco rural (grameen, em Bangladesh, significa aldeia) que concede pequenos empréstimos aos mais pobres. Yunus, após ter lecionado por muitos anos na Middle Tennessee State University, nos Estados Unidos, voltou, em 1972, para seu país, que se encontrava numa situação precária, no que se referia a qualidade de vida da população. Conta a lenda (nesse caso verdadeira) que Yunus encontrou Sufia, uma viúva com duas filhas, mais uma entre os 65 milhões de camponeses pobres de seu país. Ela recebia dinheiro emprestado para fabricar tamboretes de bambu e os vendia. Além de ser obrigada a vender o produto do seu trabalho para a mesma pessoa que lhe emprestava os recursos, os juros eram tão exorbitantes, que ela só conseguia ganhar dois centavos de dólar por dia. Isso revoltou o prof. Yunus. Sufia precisava apenas de dinheiro para livrar-se daquele trabalho quase escravo: 20 centavos de dólar para comprar bambu. Yunus descobriu que outras quarenta e duas pessoas estavam nas mesmas condições. Decidiu, então, emprestar 27 dólares àquele grupo. Instruiu os estudantes que o acompanhavam nas pesquisas para que orientassem aquelas pessoas de que o empréstimo recebido devia ser restituído e que eles podiam vender livremente os produtos manufaturados para quem quisessem. Esse foi o começo. Yunus continuou seu projeto e, em 1976, o Grameen Bank já podia conceder empréstimos às pessoas recusadas pelas instituições bancárias tradicionais, ou seja: pobres, analfabetos e mulheres. Contrariando toda e qualquer previsão de que o projeto estaria destinado à falência, o sucesso superou todo o otimismo. A média das restituições dos empréstimos, que hoje já podem chegar até 100 dólares, foi altíssima: quase 98%. O Grameen Bank, agora, é mais que um grande banco. Além de incentivar a atividade econômica da qual obtém os empréstimos, orienta as pessoas sobre saúde, higiene, alimentação mais adequada e planificação familiar. Mais de 90% dos empréstimos do Grameen Bank são concedidos à mulheres. Há uma razão para isso: de fato, elas são vistas como mais centradas que os homens no bem-estar da família. Os juros cobrados (20% ao ano) não são baixos, mas são compensados pela facilidade na obtenção do empréstimo. O banco não exige hipoteca nem fiador. O empréstimo é dado a um grupo de 4 pessoas. Dessa forma, o mau pagador é pressionado pelos demais, que não querem perder o crédito. Há época da finalização desse texto, Muhammad Yunus recebia o Nobel da Paz de 2006. O motivo da escolha, segundo o comitê do disputado prêmio: o trabalho desenvolvido por Yunus é de relevância imensurável na medida em que mais pessoas morrem vítimas da pobreza a cada ano do que vítimas da guerra(1) .

 Bibliografia Revista Mundo e Missão. Reportagem Banco para os Pobres, de Ernesto Arosio, 2005. Revista Veja. Edição 1978 – ano 39, nº 41. Reportagem Prêmio Contra a Miséria. (1) De fato, nos últimos anos o Nobel da Paz foi entregue preferencialmente àquelas que se trabalharam contra os movimentos bélicos.

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