Grandes ideias

Para Celso Lafer e em memória de Vilmar Faria

Diz o folclore que num encontro entre o poeta Paul Valéry e o físico Albert Einstein, o primeiro declarou ter muitas ideias. Após ouvi-lo, o físico declarou: pois eu, pelo contrário, tive apenas uma ideia.

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Um criador de galinhas verificou que suas aves estavam morrendo. Aplicou os remédios tradicionais, mas mesmo assim as aves morriam. Na sinagoga, recomendaram-lhe contar o fato para o rabino.

– Mestre, minhas galinhas morrem, apesar de todas as precauções. Que devo fazer?

– Filho, respondeu o rabino, por que você não troca as janelas do galinheiro?

Assim fez o criador, mas as galinhas continuavam a morrer.

– Troque os poleiros, sugeriu o mestre.

Assim foi feito, mas as galinhas morriam do mesmo jeito.

– Por que não muda a grade do galinheiro?

E assim foi feito, mas as aves continuavam a morrer. Finalmente, um desconfiado rabino perguntou:

– Filho, você tem muitas galinhas?

– Milhares!, disse o discípulo.

– Então está bem, rematou o rabino, porque eu tenho muitas ideias!

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No primeiro mito encontramos o tema corriqueiro do poeta com muitas ideias em levi-straussiano contraste com o físico genial, que muda a concepção do mundo com apenas uma iluminação. No segundo, temos um criador de inúmeras galinhas em isomorfismo com um rabino com muitas ideias. Nos dois casos, temos o Brasil: muitos problemas com uma única ideia para resolvê-los (liquidar o neoliberalismo, por exemplo) ou muitas soluções e muitos recursos, mas com tudo terminando nas contas bancárias dos nossos amados governantes cuja integridade dura tanto quanto as galinhas do criador infeliz.

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A questão manifesta nessas mitologias é a nostalgia das grandes ideias. Vale lembrar que o século passado foi pródigo em ideias definidas e salvadoras – comunismo, nazismo, stalinismo, fordismo, nacionalismo, racismo – que levaram a duas guerras mundiais, a um holocausto e a bombardeios atômicos…

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O que ocorre quando existem muitas ideais e inúmeros crentes? Surge a fragmentação das receitas e começa o fim de um mundo, onde os mestres são sábios, os poetas são tolos e as galinhas não morrem.

Mas todos são felizes e vivem por cima do arco-íris, como na música de Arlen e Harburg. Ali, não há pobres nem prisioneiros políticos, mas também não existe imprensa livre nem competição. Suprime-se a agonia das dissensões. Em todas as utopias uma ideia grandiosa, única e exclusiva domina a história. A propaganda do governo que permeia as nossas televisões e revistas é um bom exemplo da natureza desses sonhos transformados em realidade.

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Utopias são a moldura de princípios tomados como receitas para redimir e curar o mundo. Uma delas é a da democracia das multidões na praça. Uma outra é a da realidade do indivíduo livre de peias e com o direito de buscar a sua felicidade.

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Suponha que, para ser feliz, você tenha de todo dia matar um pedestre desconhecido, como na história do Rubem Fonseca. A morte no trânsito já é tão rotineira e impessoal que virou um símbolo perfeito do poder abusivo e de um abuso do poder de quem não consegue viver a igualdade. Pois quem a culpa é sempre o fraco sinônimo do “outro”. O superior não erra e continua inimputável, porque ele não se sente culpado e, no máximo, sente pode sentir – se for descoberto ou pego em flagrante – um tiquinho de vergonha. Daí vem o horror a uma imprensa livre. O símbolo do abuso nesta quinzena é o do ciclista que precisa ser “educado” para transitar no meio dos nossos automóveis, respeitando quem não tem o menor respeito! Na época da escravidão e dos barões – que transitaram do café para a Petrobrás, para as Agências Reguladoras, para a Casa Civil, para os ministérios e para os altos escalões dos três poderes -, quem estava por baixo sabia que era mesmo inferior e não ousava transitar em certos lugares. Se o fizesse, seria – exceto no Entrudo ou em alguma procissão – castigado ou morto.

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Neste Brasil ainda vertical, a utopia tinha muito pouco ver com a busca da igualdade (que os nossos utópicos dizem ser impossível até mesmo como uma utopia) – e muito mais a ver com o reestabelecimento das velhas hierarquias da sociedade por meio do Estado. Um sistema de “homens bons” (e de “gente boa”), todos com uma grande ideia que assegura como os grandes podem resolver e “cuidar” dos pequenos. O mal-estar do Brasil atual tem a ver com o fim das utopias onde todos sabiam dos seus lugares e com o nascimento de uma igualdade mundial que a todo o momento esbofeteia a nossa cara quando atropelamos um ciclista ou assistimos passivamente ao roubo dos nossos recursos por um estado canibal – predador da sociedade. Ou vemos a Europa e os Estados Unidos em crise. Nunca foi mais claro para nós mesmos, o nosso viés aristocrático materializado pelo aparelho estatal que resiste ao empreendedorismo e ao capitalismo dissidente e globalizado, em dúvida consigo mesmo e – precisamente por causa disso – muito mais aberto à democracia.

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A dúvida, porém, abre as portas para a humilde narrativa de um mundo sem verdades. Um planeta aberto à incerteza que é o avatar da igualdade. Uma igualdade pela primeira vez consciente de que é parte de um todo.

Será que estamos descobrindo uma outra grande ideia? A de saber que no mundo do humano não existe – afora a morte – nenhuma grande ideia que seja exclusivamente única e boa?

Fonte: O Estado de S. Paulo, 14/03/2012

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1 comment

  1. Regina Caldas

    nenhuma grande ideia resiste ao fato de que jogamos sempre a culpa no outro, ou no sistema…