Há vagas para políticos de fino trato

Vestindo uma roupa moderninha, o novo partido que a ex-senadora Marina Silva apresentou no último sábado em Brasília nada mais é (ainda que procure negar) do que a exposição escancarada de todos os vícios que o sistema partidário brasileiro desenvolveu nos últimos anos.

E o pior deles é o de institucionalizar o caráter de legenda de aluguel que tem caracterizados os partidos políticos – como foi o caso do PV que, em 2010, ofereceu à ex-petista Marina Silva a vaga de candidata à presidência da República pela legenda.

Passada a festa das urnas, Marina não foi capaz de transformar os 19 milhões de votos que obteve em instrumento de poder partidário.

Nem eles foram suficientes para que ela, de cima para baixo, conseguisse controlar diretórios de uma máquina partidária que, com todos os seus defeitos, vinha sendo montada havia mais de 20 anos.

E para não se subordinar aos “verdes” que de fato mandavam na legenda, pediu para sair e foi montar um partido para chamar de seu.

Esse partido tem, como uma de suas novidades programáticas (e é aí que está a institucionalização do caráter de legenda de aluguel), a reserva de 30% das vagas nas chapas proporcionais a cidadãos que não tenham militância partidária e – desde que preencham certos requisitos genéricos – queiram disputar a eleição pela Rede Sustentabilidade, o nome da nova agremiação.

A Rede pode ser boa para Marina mas, pelo que se viu na estreia, é um sonho que não passará disso. Ou, se passar, pode virar pesadelo

A lembrança que essa e outras características da Rede suscitam é a da peça “Há vagas para moças de fino trato”, do dramaturgo Alcione Araújo, que fez sucesso nos palcos brasileiros nos anos 1980.

Ali, três mulheres diferentes dividem um apartamento e falam de seus medos, suas angústias e suas decepções.

No palanque da festa de sábado, dividindo espaço com Marina (que perdeu espaço no PT e não conseguiu se impor ao PV), outros políticos de algum prestígio, que também não tiveram força para se impor às máquinas partidárias às quais dedicaram (mas que não, além dessa, têm maiores afinidades) falaram de valores que, de fato, são necessidades da política brasileira.

Ética, transparência, honestidade são princípios que, de fato, não podem faltar no cardápio. A questão eles só serão alcançados se forem valores plantados e cultivados em estruturas coesas – não em grupos onde cada um atira para o lado.

Para terminar, e como uma crítica final, mas não menos importante, a falta foco à agremiação – que tem como proposta a promoção da sustentabilidade.

Para se ter uma ideia da hierarquia de valores da Rede basta dizer que, entre as bandeiras do novo partido, a “defesa dos direitos dos aninais” (item 8) vem antes da proposta de “uma reforma urbana que transforme nossa cidade em espaços saudáveis” (item 9) e de uma “política externa baseada na cultura da paz (item 10).

A Rede pode ser boa para Marina mas, pelo que se viu na estreia, é um sonho que não passará disso. Ou, se passar, pode virar pesadelo.

Fonte: Brasil Econômico, 18/02/2013

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