O Globo, 11 de setembro de 2006 A humanidade pode ser descendente de umas poucas mulheres, não contemporâneas, de distintas regiões, que viveram entre 10.000 e 45.000 anos atrás. Essa hipótese foi lançada por Brian Sykes, professor de genética do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Oxford, em sua provocante obra “As sete filhas de Eva” (2001). Seríamos 6 bilhões de seres humanos pertencendo a apenas 33 clãs genéticos, árvores genealógicas baseadas na maternidade. Particularmente os “650 milhões de modernos europeus e os norte-americanos de origem caucasiana” descenderiam de somente sete mulheres. “Cada um de nós carrega uma mensagem de nossos ancestrais em todas as células do corpo. É nosso DNA, material genético transmitido de geração para geração, um viajante de terras e tempos antigos que vive dentro de nós. O DNA não se esquece. A história contada pelos genes mergulha em passado mais distante do que as mais antigas inscrições em pedras. Indivíduos hoje vivos são testemunhos tão confiáveis de eventos passados quanto adagas de bronze, espadas enferrujadas de um guerreiro morto ou fragmentos de um vaso de argila”, afirma Sykes. Os geneticistas rastreiam o DNA mitocondrial por medições da radioatividade de átomos de carbono em profundas sondagens em direção a tempos imemoriais. Nós, economistas, somos mais afortunados. Não precisamos ir tão longe para verificar nossas hipóteses. As contas públicas, por exemplo, também carregam mensagens confiáveis de eventos passados. Um rápido exame do orçamento federal brasileiro mostra que o governo paga a seus funcionários mais de 100 bilhões de reais ao ano para que transfiram mais de 150 bilhões em aposentadorias e outros 150 bilhões em juros da dívida, sobrando 10 bilhões de reais para o Bolsa-Família. Ou seja, para cada 1 real transferido aos pobres, gastamos mais de 10 reais com funcionalismo, mais de 15 com aposentados e outros 15 com juros. Essa composição de gastos públicos, o nível de gastos (40% do PIB) e o estoque da dívida pública (50% do PIB) são o registro fóssil de enormes desacertos na condução da política macroeconômica. E não é preciso recuar mais de 100.000 anos para encontrar a Eva mitocondrial africana, que marca a mutação original do homo sapiens. Basta recuar pouco mais de uma dezena de anos. A dívida pública, então situada em algumas dezenas de bilhões de reais, poderia ser paga com as receitas de um programa de privatização. Hoje passou de 1 trilhão de reais, mesmo após deduzidas tais receitas e os ganhos com a remonetização da economia, trazidos pelo fim da hiperinflação. A dívida trilionária traz o código genético de uma persistente administração de doses equivocadas nas políticas monetária e fiscal. É um exemplo clássico de um jogo não cooperativo. De um lado, a explosão de gastos públicos promovida pelo Executivo e pelo Congresso, e de outro, o extraordinário esforço do Banco Central para o cumprimento das metas inflacionárias. A falta de coordenação explica por que juros altos e câmbio baixo, desestimulando investimento, produção e emprego, são também heranças genéticas de uma equivocada social-democracia.

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