Heroísmo e resignação

Roberto DaMatta

Alguns jornalistas observaram a calma, a tranquilidade e a “educação” do povo japonês diante da imensa tragédia que os atingiu. Quem fala dos outros fala principalmente de si mesmo. A Antropologia Cultural moderna, nascida da revolução industrial e do evolucionismo anglo-iluminista, situou o ponto mais alto de civilização na Inglaterra e na França, enquanto o termo “cultura” ficou reservado como para todos os costumes, mas principalmente para o que era percebido como exotismos, anomalias e paradoxos (circuncisão, canibalismo, transes, politeísmo, castas, etc…) localizados em outras terras.

Falando dos outros e classificando-os como “primitivos” e “selvagens”, posto que não tinham escrita ou tecnologia sofisticada, esses antropólogos que, como os jornalistas modernos, falavam do “outro”, dos “fatos” e das “ocorrências”, não sabiam que assim fazendo revelavam mais de si do que dos povos que estudavam “cientifica e objetivamente”. Não é, pois, por acidente que na escala evolutiva daquela época, escala que ia da “selvageria” à “civilização”, terminava na grande epifania histórica constituída pela civilização do comércio, da indústria, da ciência, do progresso e, claro está, do nacionalismo e das grandes guerras que poriam fim a todas as guerras! Tal como as ideologias “científicas” e, por isso radicais, liquidariam todos as contradições sociais. No caso dos ingleses que eram liberais e capitalistas, falava-se de um progresso sem nenhuma ordem. Algo bem diferente da tradição sociológica francesa que, com Comte, acasalava os dois conceitos e criava sem querer um dos paradoxos brasileiro, pois quanto mais progresso menos ordem e vice-versa. Mas isso é uma outra crônica…

Voltando ao desastre japonês, saliento essas observações sobre o dado mais importante da tragédia – aquilo que a sustenta como tal ou a transforma em outra coisa. Refiro-me a como os japoneses a vivenciaram, como eles a interpretaram e deram conta dos fatos tremendos que atingiram a sua sociedade e o seu Estado nacional. A voz dos que lidaram com o desastre, inclusive a do imperador que lá é uma figura situada fora do mundo, bem como suas vítimas, não se centrou numa invocação de castigo como um modo de explicação do infortúnio. Mas exaltou a reconstrução, a honra, a resistência e a serenidade, tudo aquilo que está contido no conceito japonês de giri, conforme escreveu num livro mais do que clássico a antropóloga Ruth Benedict.

Isso é muito diferente do terremoto de 1755 de Lisboa, que foi visto pela sociedade ultracatólica de Portugal como um sinal da ira de Deus. Um aviso pela vida rica e festiva que nossos paisinhos levavam graças ao ouro e aos diamantes vindos das então “minas gerais”. Tanta riqueza, que promoveu leis especiais regulando as roupas, já que não se sabia mais com certeza com quem se estava falando… A manifestação da natureza, a surpresa destrutiva do acidente natural foi interpretada como a voz de Deus e o pânico, bem como, uma enorme depressão e sentimento de culpa coletivo dominaram a sociedade no salve-se quem puder, que só voltou a ocorrer em 1808 na fuga da Corte para o Brasil, mas desta feita, diante do terremoto político e liberalizante de Napoleão.

Não há no Japão, como no Oriente como um todo, a figura de um Deus patriarcal que, num outro mundo e como um ditador ou rei, controle pessoalmente o bem-estar e o sofrimento dos seus filhos neste mundo. Mais ligados à natureza do que nós, ocidentais e brasileiros que a vemos como um inimigo perigoso e só agora começamos a modificar nossa visão que oscila entre a representação da natureza como beleza ou como obstáculo ao progresso, os japoneses assumem uma notável resignação diante da catástrofe. É como se eles soubessem que ali está o limite e, nele, o chamado princípio de realidade que, vindo de fora para dentro, dissolve fantasias, desmascara mentiras e mostra como o incerto é parte constitutiva do universo humano. Dimensão que se mostra nos elos e nas obrigações que temos uns para com os outros (e com nossos ambientes “naturais”) e que se mostra nos sentimentos de vergonha, dívida, reciprocidade, dever e culpa.Tais conceitos, a um só tempo intelectuais e emocionais, condicionam e, claro está, restringem o nosso individualismo de raiz. Observa-se bem como para os japoneses o problema não é só sobreviver, mas viver e enfrentar o real e o imprevisto com honra e dignidade. Por isso, os administradores públicos japoneses, flagrados roubando o dinheiro do povo, suicidam-se numa tentativa desesperada de lavar a sua honra e desfazer suas malfadadas e vergonhosas vidas. No Brasil, tal costume causaria um tsunami nacional, pois o único político de nossa história a resgatar sua honra aviltada por meio de um suicídio altruístico foi Getúlio Vargas. E por isso eu, pessoal e humildemente, tenho por sua pessoa uma respeitosa e perene admiração. Vargas foi uma exceção: foi um Homem entre homens.

E o seu suicídio teve a força de um poderoso tremor que ainda sacode as placas tectônicas da vida política nacional que, inconscientemente até hoje, procuram refazer essa dádiva de honra lavada em sangue. Gesto que deixou de lado a imagem do mapa do Brasil como um presunto a ser canibalizado pelos pilantras de plantão, para transformá-lo num imenso e ferido coração. No Japão, vimos, não há saques, mas como compensação, há o suicídio altruísta. O ato extremo, revelador da consideração e da vergonha para com os outros. Aquilo que o grande Camus deixou passar nas suas reflexões, mas que o velho conservador Durkheim compreendeu com todas as letras.

Fonte: O Globo, 30/03/2011

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