Histórias de fim de ano

Em memória de Jorge Pedro Dalledone de Barros

Um livro me disse que neste mundo há os que amam e os incapazes de amar.

Aprendi com a vida a verdade da experiência. Há quem ame sempre, de modo direto e transparente, na riqueza e na pobreza, no poder e fora dele. Existem os programados para o amor e os que não conseguem dar um reles bom dia. Para eles, a generosidade é um ato de bravura. Se, entretanto, não é possível viver somente com amor, deve-se ponderar sobre os limites do ressentimento, da traição, da covardia e da inveja. Penso que em 2009 todos nós tivemos um tanto disso e um pouco daquilo.

Ninguém recebeu somente amor porque, se assim fosse, não chegaria até este fim de um ano tão incerto, situando Copenhague na Suécia e não na Dinamarca de Hans Christian Andersen, conforme eu fiz na semana passada. Se, por outro lado, tudo fosse feito com desamor e egoísmo, não ficava pedra sobre pedra.

O milagre jaz no contraste e na diferença.

Poucos são consistentemente bons como São Francisco ou maus como Satanás. Um frade que conviveu com um santo disse-me que não era fácil a rotina ao lado de um sujeito perfeito.

Na minha vida de pecador e invejoso empedernido, convivi com uns dois ou três FDPs e com muitos santos.

O Brasil, aliás, é um país onde santos e salvadores da pátria abundam.

Antigamente distribuíam pão, hoje dão panetones. Mas a vida, como sabemos quando aceitamos a nossa imensa solidão, é feita dessa mistura mágica de coisas planificadas com o detalhe do teatro e de eventos inesperados e gratuitos. Cada ato dessa peça tem seus atores. O mundo me reservou algumas surpresas terríveis, mas, em meio ao tumulto do sofrimento, encontrei gente como o Dalledone, que banhou minha vida com generosidade.

Estamos bebendo e comendo razoavelmente, num restaurante razoável num lugar igualmente razoável.

Mas, para contrariar a razoabilidade do nosso razoável viver, jantamos num fim de ano. Tudo pode mudar ou continuar a mesma coisa mas, no mínimo — e nós, pós-modernos, cada vez engolimos mais e acreditamos menos —, temos que ajustar relógios, conferir agendas e lembrar a mudança da data nos cheques. Estou com dois sujeitos e uma moça que conheci devido ao enguiço do avião e que comigo reclamaram do azar de ter uma viagem interrompida numa data que, subitamente, ganha uma inigualável preciosidade. Um deles é grande, gordo, usa peruca e, competitivo, pede um vinho caro. Grosseiro, faz insinuações para a jovem que, concentrada na sua frustração, não olha para ninguém. O outro parceiro de infortúnio belisca um bife e mostra um invejável controle.

Eu tento, com a ajuda de Johnnie Walker com soda, aguardar tranquilo o desfecho de uma refeição com um chato, uma patricinha e um esnobe.

Estou enguiçado num restaurante de hotel de aeroporto e, na falta dos amigos do coração com quem eu, cada vez mais, conto menos, contento-me com esses desconhecidos de última hora com quem sou forçado a compartilhar uma virada de ano.

Depois do vinho, o emproado fala da namorada (“Foram muitas mulheres…”, diz, fingindo nostalgia) que vai encontrar em Manhattan, onde tem um “puta apartamentaço!” Brasileiramente, a conversa segue de objetos para a bandalheira política e, daí, para doenças e pessoas. Chega a pergunta padrão: quantos filhos você tem? A mulher é solteira, e o caladão responde calmamente que teve três filhos e que perdeu um. A revelação embaraça pela franqueza. Num mundo de sucesso e felicidade, não cabem perdas. “Perdi meu filho mais velho, morto subitamente depois que ‘esse’ governo deixou sua companhia ir as garras!” — diz ele, nos constrangendo pelo ódio intenso com o qual enfatizou aquele “esse”.

“Era piloto da Varig, morreu com ela!”, disse num ressentimento triste e inesperado, tomando um gole de vinho depois daquele ritual babaca de sacudir a taça. A mulher iluminou-se: “Está ao lado de Deus!”, declarou num impulso. Eu, veemente, recusei a possibilidade de um outro mundo e o álcool, que afinal é espírito, ajudou na contundência da negação. Fui duro, sarcástico e professoral. Sufoquei tanto o perdedor quanto a crente.

Veio, então, a surpresa. O ricaço grosseiro, superficial e agressivo pegou carinhosamente no meu braço e disse: “Eu sei que você não acredita e até acho que tem razão quando diz que viemos do nada e ao nada retornaremos, o que o torna um ateu bíblico.

Mas, por favor, hoje é dia de surpresa e de festa. Entenda o nosso companheiro. Como você, eu não conheci e nada sei do morto, mas estamos seguros que ele era um grande sujeito e então para ele, só para ele, vamos fingir que existe um outro lado e que um dia pai e filho vão se encontrar.

Afinal, como dizia Karl Jaspers, que você certamente leu — falou ele me deixando de queixo caído —, ao morrer reencontramos nossos mortos queridos. Mergulhamos, então, na plenitude de uma vida verdadeiramente vivida. Entramos num sítio penetrado pelo amor e iluminado pela verdade!” Naquele restaurante razoável, naquela espera igualmente razoável, eu tive mais uma prova de que o mundo é mesmo muito mais espesso (e maravilhoso) do que pensava.

Minhas esperanças estão, além do arco-íris do novo ano, com o Luiz Carlos Barreto, com D. Lucy e com toda a família neste momento de angústia.

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