Imaginem os caros leitores a seguinte situação hipotética: ambiciosos políticos de um partido popular chegam ao poder, ávidos por enriquecer rapidamente. Uma vez instalados nos confortos palacianos, engendram e põem em prática um plano de inimaginável enriquecimento pessoal. Por meio de complexa estrutura criminosa, com concatenações públicas e privadas, dão vazão a bilionário desvio de recursos de importante empresa estatal. Tal empresa é tão grande e vulnerável que milhões são tratados como centavos. Para atingir seus tristes desideratos, fazem o diabo parecer um santo, remetendo a moralidade e a decência ao exílio dos costumes. Enfim, tudo leva a crer na prática de um crime perfeito, quando, sabidamente, crimes perfeitos não deixam suspeitos.

É hora de usarmos as boas teorias do passado com um olhar pragmático e penetrante na sociedade, tendo a plena consciência de que política é ação real e não uma estática retórica erudita

Com a nababesca riqueza amealhada indevidamente, o dinheiro – já dormindo em contas secretas no exterior – deixa de ser um problema para a cúpula palaciana. A questão agora é só – e somente só – se manter no poder; para tanto, vale tudo, mesmo que o tudo seja um nada moral. Quando ameaçados por adversários oposicionistas, a mentira e a violência verbal são chamadas para cumprir o seu papel e, sem ternura, destruir reputações de pessoas honradas para, ato contínuo, afastar cada vez mais os bons cidadãos da vida pública. Aliás, política alta é coisa de burguês esnobe; então, abaixo a burguesia e às favas com a tal dignidade da vida pública.

Nesse clima hostil, o ideal democrático é fantasiado por uma esperta estratégia transversa de compra de votos, ampliando-se a frenética teia de favores estatais para os mais necessitados. Um governo de gente já rica surge como redenção dos pobres e esperança aos oprimidos. Para refinar a traficância, a banda erótica da propaganda eleitoral ganha a quadra política, trazendo a promíscua melodia do ódio de classes para o triste fim de divorciar a nação. A velha máxima do dividir para governar vira, mais uma vez, marchinha do carnaval político.

No cerrar das cortinas, como sempre, restarão as cinzas e as contas para pagar. Cedo ou tarde, a festa da irresponsabilidade pública cobrará o seu preço. Quando esse dia chegar, os inflamados defensores dos pobres estarão descansando em Paris ou em algum paraíso fiscal, brindando o sucesso da demolição institucional de um país para o medonho egoísmo de interesses pessoais. Enquanto isso, na vida real, a pobreza ganhará terreno em um país em frangalhos, com a economia demolida por uma alucinada burocracia estatal.

E os princípios éticos da democracia, onde ficam? Ficam com os ingênuos cidadãos que trabalham honestamente, pagam impostos e votam conscientemente. A ideia de que os políticos são homens bons e trabalham para o bem da sociedade simplesmente não vingou nas democracias modernas. Temos que crescer politicamente e abandonar pensamentos infantis, que apenas idealizam um mundo inexistente. É hora de usarmos as boas teorias do passado com um olhar pragmático e penetrante na sociedade, tendo a plena consciência de que política é ação real e não uma estática retórica erudita. É claro que, como toda arte, a erudição poderá realçar o belo, mas a obra só sai do papel com as mãos que fazem e dão contorno à pedra bruta.

Enquanto a inércia dormir em berço esplêndido, os carreiristas profissionais deturparão acintosamente a política, reduzindo-a a uma rentável atividade de baixo meretrício. Insatisfeitos com o saque material e moral da República, como cereja do bolo, a portas fechadas, dão gargalhadas de prazer com as patetas caras cansadas de um povo ludibriado. Erguem, então, as taças e exclamam em voz alta: “Obrigado, idiotas!”.

No cair da noite, entre hipóteses e possibilidades, olho para o Brasil e apenas escuto uma amarga risada no ar. Aqui, sem luxo nem espumante, termina a presente história. Mas imaginem, caros leitores, o quão triste é a nação que tem tal enredo com um arrogante governo onipotente. Para piorar, de cena em cena o conto vai perdendo cores para o surgir de uma árida história em preto e branco. Será, então, que, ao final, os mocinhos conseguirão prender os bandidos?

Fonte: O Estado de Minas, 22/11/2014.

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