Hobbes e a justificação do estado soberano (pt. 3)

Depois de falar sobre a antropologia de Hobbes, vamos tratar de sua epistemologia.

Para o filósofo inglês, todo o nosso conhecimento é adquirido por meio dos sentidos, pelo mundo externo se pressionando contra o homem. Esses sentidos colocam o homem em movimento intelectual. A imaginação e a memória seriam apenas a redução da velocidade do movimento recebido pelas impressões (em sentido quase literal) sensoriais. As memórias podem ser arranjadas e combinadas, gerando diferentes experiências no interior da mente. Os pensamentos resultantes de tais combinações estão sempre conectados uns aos outros, fluindo de acordo com o movimento provocado pelo mundo exterior.

Para comunicar nossos pensamentos, utilizamos palavras. A razão é a adição ou a subtração do arranjo de palavras. Se dois homens diferem em seus raciocínios, é porque ocorreu uma falha de cálculo, apenas solucionável por um juiz.

A mesma aritmética aplica-se aos apetites. Os apetites são divididos em duas categorias: quando a natureza move o homem em direção a algo, nós temos um desejo. Quando move o homem para longe de algo, temos uma aversão. As ações resultam da deliberação, isto é, da operação aritmética dos desejos menos as aversões.

Ao se cancelarem, o resultado remanescente é a vontade. Os apetites, a deliberação e a vontade são comuns aos homens e aos animais. Essa operação com os dados que a natureza entra no ser humano (incluindo a deliberação entre bem e mal) não consegue chegar à verdade, porque o conhecimento nada mais é do que as impressões naturais sobre nossos sentidos. A razão tampouco pode ser confiada nessa missão, porque nenhuma pessoa em particular pode ter certeza de que sua conta está correta.

Se por um lado, a epistemologia de Hobbes começa a nos fazer enxergar a necessidade de um soberano, por outro nos revela contradições fundamentais. Se Hobbes acredita ser capaz de poder ensinar algo aos seus leitores, falta nexo entre seu propósito e sua filosofia.

Dentro do sistema hobbesiano, o Leviatã seria o resultado de uma grande equação na mente de Hobbes a partir da qual conhecimento algum pode ser extraído. Se seu discurso realmente produz conhecimento na cabeça do leitor, restam-nos duas opções: 1) Hobbes é um ser sobrehumano; ou 2) existe alguma forma de conhecimento que o cérebro humano adquire que não é movido simplesmente por forças exteriores, mas da codificação das ideias geradas por uma mente alheia que podem ser decodificadas pela nossa mente. Quando eu aprendo, minha mente muda. É necessária uma intenção nas pessoas de criar essa comunicação que é mais profunda do que Hobbes pressupõe. O primeiro golpe contra o conceito de estado soberano de Hobbes deve ser dado aqui, contra a sua noção cartesiana de que os homens são complexos e mecânicos como qualquer máquina de corda e que, portanto, devem ser ativados por agentes externos, incluindo o próprio Hobbes.

O Leviatã é, assim, um exemplo daquilo que Olavo de Carvalho chama de paralaxe cognitiva:

Toda afirmação filosófica sobre a realidade em geral, a humanidade em geral ou o conhecimento em geral inclui necessariamente, entre os objetos a que se aplica, a pessoa real do emissor e a situação de discurso na qual a afirmação é feita. O que quer que um homem diga sobre esses assuntos ele diz também sobre si mesmo. Ninguém tem o direito de constituir-se, sem mais nem menos, em exceção a uma teoria que pretenda versar sobre o gênero ou espécie a que ele próprio pertence.

Há apenas três exceções à espécie humana no Leviatã de Hobbes: a Igreja, o Estado Soberano e Thomas Hobbes. Os dois primeiros derivam sua autoridade sobrehumana de Deus. Como o conhecimento sobre as leis positivas apenas pode ser adquirido por meio da revelação direta de Deus, e Hobbes o possui, devo concluir que ele também é excepcional. Afinal, ele não apenas tenta ser um historiador, mas pretende produzir um conhecimento que o leitor não possuía previamente.

Após a leitura da teoria de conhecimento de Hobbes, ficamos com a expectativa de que nada de novo pode surgir no restante do livro, pois conhecimento não se adquire a partir do discurso, apenas dos sentidos.

(Publicado em “OrdemLivre.org“)

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