Lá se vão de novo os Estados Unidos, a potência número 1 do mundo, em mais uma retirada militar, após anos seguidos de derrotas, desgaste e desperdício. Muda o lugar no mapa-múndi, mas a história é sempre a mesma. O governo americano manda tropas, as mais bem treinadas, equipadas e tecnologicamente avançadas do planeta, para invadir e ocupar algum país atrasado, despótico e hostil, a milhares de quilômetros de casa, por julgar que ele é uma ameaça à sua segurança ou à paz internacional. Coloca à sua disposição quantidades cada vez mais colossais de armamentos, munição e material de apoio. Seja lá qual for sua situação orçamentária ou fiscal, torra bilhões de dólares nisso – tantos, na verdade, que os contadores levam anos tentando calcular quantos foram realmente. A intervenção, do ponto de vista militar, se faz como previsto nos planos, sem maiores dificuldades, até porque as Forças Armadas adversárias são uma piada – fogem depois dos primeiros tiros, rendem-se por atacado ou simplesmente desaparecem. A partir daí, tudo dá errado para os Estados Unidos. Passam a combater um inimigo que não veem, porque oculta- se na forma de guerrilhas ou de bandos terroristas, mas que os vê o tempo todo. É ladeira abaixo, então, até o fim.

É o que acaba de ficar demonstrado mais uma vez com a presente retirada das tropas americanas no Iraque, concluída antes mesmo do prazo previsto de 31 de agosto. Após sete anos de desgraça, durante os quais 4 500 soldados americanos e 115 000 iraquianos, entre civis e militares, foram mortos, 750 bilhões de dólares, ou mais, foram gastos e o Iraque foi transformado no maior e mais violento campo de operação do mundo para grupos terroristas, os Estados Unidos desistem; não podendo ganhar, dão a missão por cumprida e vão-se embora. É preciso dizer alguma coisa, claro, e no caso a coisa que se encontrou para dizer é que as tropas americanas não são mais necessárias para assegurar a criação e o funcionamento da democracia no Iraque; basta, para isso, “terceirizar” a guerra, pagando-se às companhias privadas de segurança pela tarefa de dar apoio ao novo Exército iraquiano no combate ao terrorismo. É um conceito novo, sem dúvida: em vez de fazer a guerra, apenas pagamos por ela, e com isso se evita um monte de dor de cabeça. Talvez faça sucesso nos anos que estão por vir.

Não ajudou em nada, nessa história de triste começo, meio e fim, o fato de que o grande arsenal de armas de “destruição em massa” que o Iraque teria acumulado secretamente, e que serviu de principal argumento para justificar a invasão, acabou por se revelar completamente falso. Também já perdeu muito do seu impacto a única realização realmente visível da campanha americana – a captura e execução do ditador Saddam Hussein. O que acabou prevalecendo até o fim, para os Estados Unidos, foi a frustração de se verem envolvidos em mais uma guerra sem definição, onde um mal é substituído por outro; sai o horror da ditadura e entra o horror das bombas terroristas, com seu cruel cortejo de mortos, feridos e destruição. Como pano de fundo para tudo isso, de novo, fica a sensação de impotência militar das Forças Armadas mais poderosas, modernas e bem armadas do mundo – consequência inevitável da incapacidade do governo em definir uma estratégia clara e objetivos coerentes para seus comandantes no campo de batalha. Há os meios, sem dúvida, mas nunca se consegue estabelecer direito a missão. O resultado, ao longo de sete anos de combate, é que não se responde de forma satisfatória à pergunta-chave: o que temos de fazer aqui? Mais que tudo, provavelmente, a intervenção termina com mais um exemplo de que os governos dos Estados Unidos continuam a demonstrar extrema dificuldade em aprender com a experiência. Nenhuma lição parece ter ficado do Vietnã ou do Afeganistão, onde o império soviético foi a pique nos anos 80 – e onde os próprios americanos se enterram hoje em outra guerra sem esperança.

Fonte: Revista “Exame” – 08/09/10

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