“Não é da natureza da política que os melhores homens devem ser eleitos; os melhores homens não querem governar seus semelhantes” (George MacDonald)

Qualquer brasileiro tem plena consciência da extrema ineficiência do setor público. O desperdício salta aos olhos, a lentidão é irritante, a arrogância dos funcionários costuma ser a regra e a falta de compromisso com os pagadores de impostos é total. O governo gasta muito, e gasta mal. O resultado é conhecido: uma das maiores cargas tributárias do mundo, com péssimos serviços públicos. Impostos escandinavos para serviços africanos.

Diante deste lamentável quadro, alguns empresários têm tido a louvável iniciativa de lutar por um choque de gestão no setor público. A ideia básica é levar para o governo os princípios de gestão da iniciativa privada, tais como meritocracia, transparência e foco no resultado. O Movimento Brasil Eficiente, o Instituto de Desenvolvimento Gerencial, o Partido Novo e outros projetos da mesma natureza enfrentam este enorme desafio, e merecem todo apoio da população. Há muito que ser feito para reduzir a ineficiência do governo brasileiro.

Dito isso, é preciso lembrar que estas iniciativas são necessárias, mas não suficientes. Afinal, existem características inerentes ao setor público que dificultam muito a execução das tarefas de forma eficiente. Os mecanismos de incentivo são perversos: o dinheiro é da “viúva”, o horizonte acaba sendo de curto prazo devido às eleições, e os grupos de interesse se organizam em busca de privilégios, enquanto os custos ficam dispersos em toda a sociedade.

Devido ao grau absurdo em que chegou a incompetência do governo, é possível entregar ótimos resultados com este choque de gestão pregado pelos empresários. Mas, para voos mais altos, que colocariam o Brasil finalmente na rota de um país desenvolvido, será preciso fazer muito mais. Reformas estruturais, como a previdenciária, a trabalhista e a tributária, são essenciais no processo de mudança. E, talvez o mais relevante no longo prazo: a mentalidade terá que mudar.

O Brasil é vítima da hegemonia de esquerda no debate político. Há uma espécie de monopólio cultural, que forçou a migração de todos os partidos para o discurso social-democrata retrógrado. Não existe uma oposição verdadeira, com um projeto liberal alternativo. Os empresários são vistos com maus olhos, o lucro é quase um pecado, enquanto o paternalismo estatal predomina. O “estado babá“, que pretende cuidar do povo como se este fosse formado por um bando de crianças incapazes, acabou conquistando o apoio de muitos.

Enquanto esta ideologia atrasada não for mudada, qualquer choque de gestão terá alcance limitado. Uma elite que se sente culpada pelo sucesso será sempre presa fácil nas mãos de demagogos. Populistas de plantão se fartam numa sociedade que ataca o sucesso individual e enaltece o coletivismo por meio do governo. No Brasil, ainda rende votos “acusar” o adversário de defender a privatização. Este retrato do atraso ideológico demonstra como é importante lutar no campo das ideias também.

O pensador inglês Edmund Burke escreveu: “Mude as ideias, e você poderá mudar o curso da história.” Victor Hugo disse que “nada neste mundo é tão poderoso como uma ideia cuja hora é chegada”. O economista austríaco Mises constatou que “ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão”. Infelizmente, a maioria dos empresários brasileiros tem pouca fé no poder das ideias. Talvez fosse o momento de dar mais atenção a esses pensadores.

O excessivo pragmatismo deixa de lado importantes valores e ideais, e estes são fundamentais para o sucesso sustentável de uma sociedade. O nazismo e o comunismo não seriam menos monstruosos se tivessem obtido resultados econômicos satisfatórios. Os fins não justificam quaisquer meios. Claro que o modelo político brasileiro não pode ser comparado a estes regimes totalitários nefastos.Mas existem inúmeros aspectos que precisam urgentemente de reforma, e não apenas pelos seus resultados econômicos.

Acima disso está a soberania individual. O indivíduo deve estar protegido da “tirania da maioria” exercida por meio de um governo demasiadamente intervencionista. Nosso governo costuma tratar as pessoas como súditos, não como cidadãos. Está mais do que na hora de mudar isso. O verdadeiro choque de gestão que o país precisa é retirar diversos obstáculos criados pelo governo e deixar o indivíduo livre para assumir as rédeas de sua própria vida. Somente depois disso seremos cidadãos de verdade.

Fonte: O Globo, 22/03/2011

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5 comments

  1. Beto Brandão

    Do jeito que você fala, parece que a iniciativa privada é o melhor exemplo de gerência e que devemos confiar nossas vidas nas mãos deles. O exemplo da crise americana mostrou que as tragédias financeiras causadas pelo mercado privado socializam os prejuízos também. Quando o governo americano soltou os bilhões para salvar os bancos o que eles fizeram? Deram bônus para seus executivos. Farra com o dinheiro público! O mercado precisa de liberdade, mas a intervenção estatal é mais do que bem vinda.

  2. Beto Brandão

    Do jeito que você fala, parece que a iniciativa privada é o melhor exemplo de gerência e que devemos confiar nossas vidas nas mãos deles. O exemplo da crise americana mostrou que as tragédias financeiras causadas pelo mercado privado socializam os prejuízos também. Quando o governo americano soltou os bilhões para salvar os bancos o que eles fizeram? Deram bônus para seus executivos. Farra com o dinheiro público! O mercado precisa de liberdade, mas a intervenção estatal é mais do que bem vinda

  3. João

    Beto, a culpa da crise nos EUA é da iniciativa privada? O maravilhoso estado deveria nos salvar dos vilões sedentos por sangue? Recomendo que você leia sobre Community Reinvestment Act, Cash for Clunkers e outros exotismos do governo dos EUA para “salvar” a economia.
    A intervenção estatal ajuda quem? Se você parar para pensar, a resposta é óbvia: ajuda empresas que têm melhores ligações com o governo. Ou você acha que o BNDES não é utilizado para fornecer dinheiro a amigos do reino?

  4. otavio filho

    Seu discurso parece um pouco neo-liberal.

  5. O Brasil é vítima da hegemonia de esquerda no debate político. Ok, mas por andou a direita nesses tempos que a esquerda estabeleceu sua hegemonia? E nem digo direita, digo por andaram outras correntes ideológicas que não as socialistas reformistas no período em que a esquerda estabeleceu sua hegemonia? Dormindo? Agora,o jeito é correr atrás do prejuízso .