Não há mais como esconder o sol com a peneira. A presidente reeleita, os novos governantes estaduais e a representação no Congresso Nacional terão de enfrentar, nos próximos tempos, o sol mais abrasador de verões que o país viveu nas últimas décadas.

Há razões de sobra para demonstrar a hipótese, mas fixemos a atenção apenas numa: a sociedade organizada está adiante do universo político. O que quer dizer que a comunidade nacional, abrigada em núcleos de interesse e em fortalezas de demandas, está um passo a frente dos mandatários; estes, infelizmente, não têm conseguido acompanhar as massas apressadas e estabelecer com elas pontes de acesso e diálogo.

É visível a distância entre a esfera política e a esfera social, principalmente quando se constata que a profusão de demandas reprimidas não consegue entrar nos ouvidos de representantes inertes e insensíveis.

O ânimo das massas passa ao largo da sensibilidade dos governantes

As manifestações que despertaram a sociedade nos meados do ano passado e se estenderam por bom tempo refluíram, dando passagem à onda eleitoral, mas não significa que foram enterradas nas urnas. Ao contrário, a qualquer momento podem dar sinais de vida, senão de maneira estrondosa e impactante, pelo menos de modo pontual, atacando aqui e ali as carências nas áreas de mobilidade urbana, moradia, degradação ambiental, falta d’água, assentamentos, demarcação de terras etc.

A propósito, a Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz acaba de identificar 490 pontos de tensão no país, nas áreas urbanas e rurais de todos os Estados. Estas bombas-relógios deverão ser desarmadas pelos chefes de poder que governarão o país nos próximos quatro anos, sob pena de vermos vulcões jorrando larvas aqui e ali.

As massas aguardam apenas o momento adequado para disparar sua munição. Ou, pelo alfabeto de Elias Canetti no clássico Massa e Poder, para jogar sua descarga, fenômeno em que ele descreve os componentes das turbas como pessoas iguais, unidas e em uníssono, usando a força para obter soluções aos problemas de quem detém as rédeas do poder.

Quando as demandas chegam ao pico, em decorrência de carências que se tornam agudas – como a escassez d’água, o disparo da inflação, o aumento da cesta básica, o esgotamento dos meios de transporte urbano – as massas tendem a expandir sua densidade e a procurar um direcionamento.

As camadas tectônicas da política ainda não se acomodaram no território dividido pelo voto

Se suas metas não forem atendidas, não se extinguem, podem se recolher momentaneamente para, mais adiante, voltarem com mais ímpeto ao palco das pressões. Pelo visto, o ânimo das massas passa ao largo da sensibilidade dos governantes. Ora, não se viram, até o momento, obras de vulto ou investimentos de porte para desobstruir os gargalos que têm originado as manifestações de rua nas grandes cidades e nas áreas rurais.

Pelo visto, não veremos um 2015 pacificado. As camadas tectônicas da política ainda não se acomodaram no território dividido pelo voto. E é pouco provável que se ajustem no curto prazo, até porque os exércitos dos dois lados, alinhados durante a sangrenta batalha eleitoral, continuam a disparar seus canhões pelas redes sociais, atirando a torto e a direito, usando munição pesada dos anos de chumbo, no caso, apelos radicais pela volta dos militares, ou ainda, exageros como palavras de ordem pelo impeachment da mandatária reeleita.

O debate faz bem à democracia, mas o discurso político, parta de onde partir, mesmo ancorado na animosidade, há de se regrar pelo império da lei e da ordem.

Essa é a direção que se enxerga da fala do candidato tucano derrotado, indício de que a oposição tende a desempenhar seu papel sem extrapolar o limite do bom senso. Da parte da candidata reeleita, já se ouviu a peroração com foco no diálogo. Resta se esforçar para que a militância petista, vestindo a roupa de milícia disposta a usar armas de grosso calibre, se convença que o acirramento de ânimos não é a melhor estratégia.

Ao Congresso Nacional cabe uma releitura do país que saiu das urnas, com ênfase ao clamor de grupos e regiões, sem procurar protelar a agenda das reformas, particularmente em relação àquela que lhe diz mais respeito, a reforma política. Pouco adianta olhar para o retrovisor e perder tempo com a querela verbal do pleito.

Aos partidos, urge chegar a um mínimo de consenso em torno de pontos centrais para a mudança dos padrões da política. Não é possível que os atores não percebam que a sociedade anda a passos geométricos enquanto a esfera representativa arrasta os pés em compasso aritmético.

Ou será que não enxergam a possibilidade de um ciclo legislativo tumultuado, com os corredores e salões das casas congressuais ocupados pelos movimentos organizados? O país não suporta conviver com a postergação de medidas de correção de rumos.

Senhores políticos de todos os partidos, afastem tal risco. Senhores do PT, tenham cuidado com a ideia de construir um “Brasil democrático-popular”, eis que a argamassa a ser usada nesse empreendimento – revolução cultural, luta de classes, revisão da lei da anistia, reforma e desmilitarização das polícias militares, entre outras medidas avocadas na nota da Comissão Executiva do PT, semana passada, – pode fazer desabar a construção.

A convocação para a militância acorrer às ruas é saudável quando a causa for a defesa do Estado de Direito.

Nossa Constituição estabelece os meios para a democracia direta – plebiscito, referendo e projetos de lei de iniciativa popular. A criação de um amontoado de instâncias populares com essa finalidade poderá descambar no caos. E um controle social da mídia (seja lá o que for isso) tem jeitinho de disfarce para censura. Ou será que nossa democracia representativa está exaurida?

Muita calma com o andor. Lembrem-se da observação de Thomas Hobbes, ante a moldura de uma sociedade que se defronta com horizontes embaçados em função da fumaça de incêndios prolongados: “nesse estágio em que nada mais se vê e se apresenta, o trunfo é paus”.

Longe de nós mudança à base do “pé na porta”.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 09/11/2014.

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