Em “A lógica econômica da chantagem atômica norte-coreana” (julho/06), fiz uma breve análise dos incentivos que sustentam o – aparentemente – ilógico discurso do ditador Kim Jong Il em relação ao “capitalismo” que, para ele, é sinônimo de mercados livres ou de ausência de planejamento estatal. Basicamente, Kim usa de seu poder monopólico, tanto em termos de política, como de economia, para barganhar insumos para os seus objetivos.

Como se sabe, a Coréia do Norte é um país cuja população não vive sob o capitalismo (e nem sob a globalização). Ao mesmo tempo, seu governo desenvolve uma política pública clara de construção de um arsenal nuclear. Com o teste de seu míssil de longa distância, Taepodong-2, em julho do ano passado, Pyongyang despertou o alerta de seus vizinhos – Rússia, China, Coréia do Sul e Japão – além, claro, dos EUA. Como explicado no meu pequeno texto citado, a lógica deste arsenal tem a ver com a chantagem atômica que Kim impõe ao mundo.

Recentemente vimos a conclusão das negociações entre o governo norte-coreano, os EUA e o grupo de países citados em torno do programa nuclear norte-coreano. Em resumo, Kim leva para casa, para começo de conversa, 50 mil toneladas de combustível e tem 60 dias para mostrar à ONU que fechou seu reator em Yongbyon (embora nada tenha sido dito sobre a resolução 1718 da ONU que recomenda o fim do programa nuclear norte-coreano). Como destacado pela imprensa, não se tratou da quantidade norte-coreana de plutônio disponível ou suas supostas bombas nucleares (Kim, como Saddam, sempre faz um discurso ambíguo sobre o tema). Também nada foi negociado acerca dos seqüestros de japoneses e sul-coreanos pelo governo norte-coreano nos anos 70 e 80, um tema que causa, obviamente, comoção e horror não apenas em japoneses ou sul-coreanos.

Em 1994, a administração Clinton fez acordo similar ao que ora se anuncia, ao fornecer petróleo em troca de um congelamento do programa nuclear norte-coreano. Os fatos mostram, portanto, que Kim não é bom cumpridor de promessas e, claro, acordos como este sempre têm o preço alto de se legitimar um ditador às custas de uma promessa. A primeira impressão do noticiário é que os negociadores pagaram caro e levaram muito pouco. São os negociadores norte-coreanos notáveis jogadores de pôquer? Provavelmente não.

O que parece pouco racional por um lado pode muito bem o ser de outro. Por vários motivos: (a) ao governo socialista da China interessa um Kim amistoso, mas não poderoso. Ainda mais agora que novas conversações foram iniciadas pelos governos de Beijing, Seul e Tokyo sobre seu contencioso sobre o ensino de história nos respectivos países; (b) ao governo sul-coreano não interessa uma unificação imediata (mas sim no longo prazo) e, apesar do discurso xenófobo, sabe-se que o contingente norte-americano estacionado na Coréia do Sul ainda significa menos sacrifício de vidas sul-coreanas; (c) ao governo japonês interessa resolver o assunto dos “seqüestrados” e, pelo que se vê, é o mais insatisfeito com o resultado das negociações e, finalmente, (d) no caso dos EUA, há indícios de que o governo estaria preocupado em diminuir sua presença na Ásia e intensificá-la no eixo África-Oriente Médio como, recentemente se viu com a criação do AfricaCom e os boatos de que estaria preparando algum tipo de plano de contingência para diminuir a intromissão iraniana na estabilização sócio-econômico do novo governo iraquiano.

A conclusão é que, claro, os negociadores norte-coreanos não são exímios jogadores de pôquer. Embora Kim assim o queira e alardeie que venceu “o” jogo da negociação, o que realmente aconteceu é que ele foi vitorioso em apenas um subjogo, parte de um jogo maior – que ele conhece, mas, claro, não divulga – em que ainda é barato, para os governos envolvidos, tolerar suas perigosas brincadeiras nucleares. Enquanto isto, a economia socialista da Coréia do Norte segue incapaz de vencer a fome em seu próprio país. Quanto ao futuro, talvez apenas a Coréia do Sul tenha algum poder de influenciar mudanças institucionais no belicoso vizinho que poderiam minimizar as conseqüências de gente como Kim II Sung ou Kim Jong Il.

P.S. Para uma outra opinião sobre o (in)sucesso do acordo, veja este link.

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