O Papa Bento XVI denunciou como inimigos da Igreja Católica o materialismo e o relativismo moral, que revelam e reforçam o vazio espiritual da moderna civilização. A recuperação da sanidade do mundo exigiria a reaproximação com o divino, para a cura de uma sociedade sem fé. Foi sangrento o mundo da fé. A fúria dos cruzados. As fogueiras da Inquisição. Os cem anos de guerras religiosas após a reforma protestante. Nada, porém, que se comparasse às carnificinas da era da razão. O terror jacobino, as guerras napoleônicas, o terror bolchevique, as guerras mundiais.

O papa tem motivos históricos para descrer das visões de mundo formuladas na era da razão. Como teólogo e alemão, sabe que a gradual desintegração do Sacro Império Romano-Germânico ocorreu quando se dissolveram as pretensões de universalidade do catolicismo no final da Idade Média. A França de Richelieu, ignorando práticas, deveres e compromissos morais de sua época, como aponta Kissinger em Diplomacia (1994), formulou um conceito de “razão de Estado” e “segurança nacional” para suplantar noções medievais de uma moral universal. Da mesma forma, o imperador prussiano Frederico, o Grande, que ainda jovem rejeitara O Príncipe, de Maquiavel, como uma obra amoral, afastou-se de Deus e da virtude, iniciando a escalada, de Bismarck a Hitler, que empurraria a civilização à beira da extinção pelo choque de ideologias.

Por isso, o papa Bento XVI pediu aos brasileiros, em sua despedida, “mais fé e menos ideologia”. Disparou também contra as visões materialistas de um mundo sem fé: “Tanto o capitalismo quanto o marxismo prometeram encontrar o caminho da justiça e falharam”.  O marxismo foi não apenas um formidável equívoco intelectual, foi também um trágico experimento de coordenação política, social e econômica. Mas seu apelo a nossos instintos tribais de solidariedade e altruísmo, herança da moralidade dos pequenos bandos e das grandes religiões, é parte da síntese da Grande Sociedade Aberta. Já o capitalismo é uma extensa ordem de cooperação social cada vez mais abrangente, que atinge agora escala planetária. Criticado por sua impessoalidade, detestado por intelectuais e incompreendido pelas massas, é apenas um espelho que reflete a moralidade dos bilhões de indivíduos em sua complexa rede.

“Nossas dificuldades resultam de que precisamos constantemente ajustar nossas vidas, nossos pensamentos e nossas emoções a dois mundos diferentes, ordenados por regras e moralidades distintas. Se aplicássemos regras de nosso microcosmo (o pequeno bando, a tribo, nossas famílias) ao macrocosmo (a civilização moderna), como nossos instintos e apelos sentimentais exigiriam, destruiríamos a extensa ordem de cooperação econômica e social. E também se aplicássemos as regras impessoais dessa mais abrangente ordem de cooperação a nossos grupos mais íntimos, nós os destruiríamos”, diz Friedrich von Hayek, em A Pretensão Fatal: os Erros do Socialismo (1988).

Portanto, para um humanista equipado de conhecimento científico, a decomposição das famílias, a violência, a corrupção, o aborto, as drogas, a dissolução dos costumes e a falta de solidariedade com os menos afortunados não são apenas sintomas do abandono de Deus pelos homens, como diz o papa. O mundo sem fé religiosa não é um mundo sem realizações nem esperança. É um mundo em que a confiança na própria humanidade, em sua capacidade de modificar e melhorar o destino da espécie, exige constantes aperfeiçoamentos e adaptações, para erigir uma ética baseada na dignidade humana.


Publicado em Época – Edição 471 de 28 de maio de 2007

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