O contraste entre comunismo e capitalismo é, em última instância, o contraste entre idealismo e realismo. A palavra idealismo normalmente é entendida no sentido de ter um ideal a partir do qual julgar a vida ou no sentido de perseguir um ideal para que ele se torne realidade. O primeiro sentido é claro: diante, por exemplo, de uma situação difícil, uma pessoa pode voltar-se para seus ideais em busca da solução, ou pode simplesmente usá-los para pautar sua conduta no dia a dia. Já o segundo é um pouco mais complicado. Podemos dizer que um ideal é perseguido, por exemplo, por um sapateiro: ele tem um sapato ideal na sua cabeça e tenta produzi-lo. Entre a idéia e a materialização da idéia, horas são dispendidas, materiais são gastos. Mas, se este sapateiro considerasse que para que o sapato que tem na cabeça se materialize é preciso obrigar os filhos e os vizinhos a trabalhar, sob pena de morte ou prisão, qualquer um diria que ele é um monstro, e que há limites para a busca do sapato perfeito. Se admitimos que os partidários de uma religião não têm o direito de forçar as pessoas a acreditar nela, quanto mais admitiremos que um sapateiro não tem o direito de forçar as pessoas a aderir ao projeto do sapato perfeito. Em suma, por mais belo que seja perseguir um ideal, é terrível obrigar outras pessoas a segui-lo também. Já o realismo vai partir das coisas mesmas. Vai tomar como base as decisões e inclinações reais das pessoas. Vai tomar como valor máximo não a força da vontade de impor ou realizar algo, mas a liberdade, sempre acompanhada de prudência – o que em última instância se baseia na humildade, na crença de que o outro pode estar certo, de que ele é que sabe o que é melhor para sua vida, que ele não tem nenhuma obrigação de aderir às minhas crenças. Se aquele sapateiro propusesse um salário para um trabalhador, e este aceitasse, haveria uma troca livre entre duas partes. Não competiria a ninguém além deles avaliar se a decisão foi boa ou má; a prudência sugere que dois adultos sabem o que fazem e o melhor é não se meter. O realismo mostra que as pessoas não ficam felizes quando são obrigadas a fazer o que não querem, mesmo que isso pareça (e às vezes até seja) melhor para elas; que dar liberdade a cada um é a melhor maneira de não ser responsável pela desgraça alheia – o que, no caso do comunismo, significa ter mergulhado as mãos em rios de sangue.

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