Dando continuidade à série iniciada com o primeiro artigo deste conjunto de ensaios “contrarianistas”, que tratou de um suposto mundo arbitrário, cruel e violento, venho agora à segunda questão importante, que tem a ver com a posição do Brasil no mundo. Veja se você também concorda com esta afirmação: 2. O Brasil está situado na periferia, por razões históricas e estruturais, e portanto forçado a uma situação de dependência em relação às poderosas nações centrais. Resposta rápida: A condição geográfica pode expressar algo certo apenas relativamente, mas qualquer derivação geopolítica ou geoeconômica está errada absolutamente. Essa situação pode ter sido válida num passado distante, mas não é mais válida depois de quase 200 anos de independência. Desenvolvimento: A afirmação é uma das mais comuns em nossos livros de “ciências sociais”, tendo merecido destaque em certa literatura do “subdesenvolvimento latino-americano” e ela implica, na concepção desses autores, a preservação de laços de “exploração” e de “extração de recursos” em benefício do sistema central. Em primeiro lugar, cabe esclarecer que “centros” e “periferias” existem em quaisquer sistemas minimamente organizados de produção e de distribuição de produtos para o mercado, com canais de acumulação mercantil que atuam sempre em favor dos núcleos organizadores dos processos produtivos e, mais frequentemente, daqueles que controlam os circuitos de distribuição. O Brasil, de certo modo, vem se constituindo em centro econômico para regiões da América do Sul a ele conectados por laços físicos que se desdobram numa teia de fornecimentos recíprocos nas áreas industrial, agrícola e de serviços diversos. Países menores, a exemplo da Bolívia e do Paraguai, expressam o temor de se tornarem dependentes do Brasil. Ainda que a acumulação sempre se faça em proveito de uma economia central, como ocorre historicamente em qualquer sistema estruturado de produção e distribuição de bens e serviços escassos, nada impede elites conscientes de organizarem seu próprio sistema de acumulação produtiva em bases propriamente nacionais. Se elas não o fizeram, ou ainda não o fazem, não se deve buscar culpados – os “bodes expiatórios” das antigas religiões sacrificiais – fora de seu próprio ambiente histórico de organização social, quando este foi minimamente dotado de autonomia política, como parece ser o caso do Estado brasileiro a partir de 1822. A “dependência”, empiricamente, é um outro nome para a acomodação das elites em relação a um sistema que lhes permitia desfrutar de relativo conforto material, sem a obrigação de criar novas formas de organização social da produção baseada num “modo inventivo” gerado de forma endógena. Não há dúvida de que o Brasil emerge a partir de uma estrutura colonial extrovertida, mas o rompimento dos laços políticos e econômicos de dependência formal está quase completando dois séculos, sem que no entanto algumas de suas elites tenham decidido romper com a “dependência mental” que as faz atribuir a uma “dominação estrangeira” as razões de certos males e deficiências que se situam inteiramente em nosso controle remediar, sobretudo mediante a educação ampliada das grandes massas e a introdução de ganhos incrementais nas atividades produtivas básicas do sistema econômico nacional (exportamos café há 200 anos, por exemplo, sem que se tenha consolidado, até há pouco, uma marca internacional própria nessa área). Quanto à “teoria da dependência”, não há porque lhe atribuir maior importância analítica, e de fato ela não possui nenhuma, pelo menos no que se refere a nossos próprios problemas de desenvolvimento. Trata-se, meramente, numa comparação ex post, do “neoliberalismo do marxismo vulgar”, aquele imperante nos anos 1950 e 60 e que justamente procurava explicar nosso “subdesenvolvimento” devido à “exploração” das nações centrais (isto é, mais avançadas). O que essa “teoria” – na verdade uma tentativa de “explicação” não convencional, mas corrigindo a velha teoria do imperialismo – buscou “demonstrar” foi que, justamente, a despeito da “exploração capitalista”, algum desenvolvimento era possível, no quadro da mesma situação de “dependência”. Para todos os efeitos práticos, pode se deixar o passado em paz, esquecer a “teoria” e dedicar-se à tarefa de “desenvolver” o país pela aplicação das “velhas” e provadas receitas dos países centrais: educação, capacitação técnica e profissional, instituições compatíveis com as necessidades de “acumulação”, elites menos parasitárias ou prebendalistas, moeda saudável, Estado e sistema político funcionais para os fins do progresso econômico e social da Nação. Ou seja, o Brasil é tão dependente de nações poderosas, quanto o Canadá o é dos Estados Unidos, a Holanda o é da Alemanha, o Luxemburgo da Bélgica e esta da França: uma rede de conexões econômicas unem todos esses países, na famosa interdependência global. Por certo, como na famosa frase de George Orwell, em Animal Farm (A Revolução dos Bichos), todos os países são interdependentes, embora alguns sejam mais interdependentes do que outros. Em todas essas situações, os processos decisórios mais importantes estão sempre situados nas mãos das elites governantes, a quem incumbe a responsabilidade de conduzir o país a patamares superiores de autonomia tecnológica e científica, o que só se obtém, justamente, na interação com os centros mais desenvolvidos de produção científica e tecnológica. Isolamento “soberanista” sempre foi uma receita errada para construir a autonomia decisória de qualquer país. Que o digam o Japão e a China, que emergiram brutalmente, em diferentes épocas, de letargias seculares de esplêndido isolamento, tendo sido humilhados pelas potências ocidentais que tinham se lançado em aventuras extra-fronteiras no início do século XV – utilizando, aliás, técnicas aprendidas da China –, antes de poderem recuperar a autonomia e a dignidade na interação com essas nações mais poderosas… (a seguir…).

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