No seguimento dos dois primeiros artigos desta série – iniciada com um primeiro artigo sobre um suposto mundo arbitrário, cruel e violento no qual estaríamos inseridos, seguido de outro sobre a posição alegadamente periférica do Brasil nesse mundo – gostaria, agora, de saber se você concorda com esta afirmação: 3. A dominação econômica de empresas multinacionais atua como obstáculo para nossa independência tecnológica e se reflete em relações desiguais na balança tecnológica. Resposta rápida: Totalmente errado. Os efeitos são exatamente no sentido contrário, mas o trabalho principal tem de ser feito em casa. Desenvolvimento: As “empresas multinacionais” do primeiro capitalismo, isto é, antes mesmo da Renascença, eram representadas pelos banqueiros italianos e seus agentes comerciais espalhados pelas principais cidades européias e portos das costas comerciais vinculadas entre si pela rede incipiente de negócios do sistema mercantilista. Eles foram depois suplantados pelos banqueiros germânicos e holandeses, que passaram a atuar em mares mais distantes ou financiando as empresas comerciais e os entrepostos longínquos dos aventureiros ibéricos. O monopólio holandês do comércio de alto mar foi logo depois desafiado e vencido pelos capitalistas britânicos, fazendo de Londres o centro do primeiro sistema econômico verdadeiramente mundial da história. As “empresas multinacionais”, até então, eram empreendimentos mercantis e financeiros, como as companhias de comércio, muitas delas dispondo de “monopólios estatais” (com reservas de mercado legalmente atribuídas) ou mesmo de verdadeiros exércitos (como a que conquistou o Nordeste do Brasil). Com a primeira revolução industrial, fundamentalmente britânica até meados do século XIX, surgem as primeiras grandes companhias devotadas ao setor industrial: locomotivas, motores a vapor, máquinas têxteis, ou mesmo grandes empresas manufatureiras para os bens correntes (tecidos e roupas, porcelanas, artigos da metalurgia, processamento alimentar etc.). O sistema patentário se desenvolve contemporaneamente, buscando precisamente preservar “segredos tecnológicos” que até então circulavam com os mestres de fábrica ou eram apropriados sem maior respeito pela “propriedade intelectual” representada pelo “gênio inventivo” de algum engenheiro isolado. O sistema financeiro também se expandiu de modo inédito, junto com serviços de seguros e transportes, mas o setor foi durante um certo tempo dominado por empresas inglesas de alcance mundial, na medida em que o padrão ouro se confundia com a própria libra britânica. O sistema fabril se expandiu enormemente desde então, colocando em segundo plano as velhas companhias de comércio e navegação e dando origem aos famosos “trustes” do final do século XIX e início do seguinte: tinham nascido as empresas multinacionais típicas do século XX, ou seja, empresas integradas, verticalizadas, voltadas para a fabricação completa de um determinado produto ou máquina (como as máquinas de costura, por exemplo). O capitalismo se concentra – no setor automobilístico essa tendência é evidente – e produz alguns dos gigantes industriais, vários deles ainda presentes no cenário das “companhias gigantes” de nossa época. O fato de que a maior parte dessas empresas multinacionais fosse, na verdade, a expressão mundial de firmas da Europa e dos Estados Unidos não impediu que o Japão e, no devido tempo, a Coréia passassem também a contar com o seu pequeno ou grande lote de “multinacionais”, assim como países considerados em outras épocas como periféricos (Finlândia, por exemplo). Como isso se deu? Obviamente pela cópia de tecnologias bem sucedidas – em alguns casos, pirataria de patentes, para ser claro e direto –, pelo licenciamento de know-how e de técnicas de fabricação e comercialização de produtos ou processos, mas basicamente pelo investimento pesado em mecanismos e instituições próprios de inovação tecnológica, o que geralmente começa pela disseminação democrática de sistemas educativos amplos e criativos, mobilizadores de TODAS as energias nacionais. Esse é o caminho da constituição de “multinacionais nacionais”, sem que haja, a rigor, nenhum obstáculo tecnológico ou político à repetição de experiências bem sucedidas em outros lugares. O fato de que grandes empresas estrangeiras desloquem a produção nacional em algum setor específico não é um impedimento absoluto à capacitação tecnológica nesse setor, pois que a transferência de tecnologia sempre se dá, de modo direto ou indireto, tanto mais rapidamente quando o país receptor não criar obstáculos “soberanistas” ao livre jogo das forças de mercado. Não há, nem pode haver, imutabilidade no campo da tecnologia, como o provam as novas multinacionais do século XXI, empresas nascidas no bojo da terceira revolução industrial que estão deixando para trás algumas gigantes manufatureiras da era elétrica ou química. Essas novas multinacionais são, aliás, relativamente independentes dos antigos processos manufatureiros e criam sua própria estrutura da oferta e da demanda, sem se preocupar com os monopólios do passado. Monopólios temporários na área do software, por exemplo, serão por sua vez erodidos pela própria lógica do sistema aberto da economia do conhecimento, algo que está ao alcance da mão de países hoje relativamente “atrasados” como o Brasil ou Índia. Quanto à desigualdade tecnológica e seus efeitos no balanço de pagamentos, não há motivo para maiores preocupações a médio ou longo prazo. Um país importador líquido de tecnologias, mesmo já desenvolvido, sempre terá uma balança desfavorável, em determinadas conjunturas, pois que confrontando seu próprio estoque de conhecimentos, necessariamente limitado, ao do resto da humanidade, infinitamente mais vasto. Num determinado momento, ele passa a ser exportador de uma determinada modalidade de produto ou serviço, no qual ostenta maiores vantagens comparativas – música, por exemplo, ou ainda jogadores de futebol – e passa a auferir ganhos derivados dessa situação de excelência frente a todos os demais rivais. (a seguir…)

Deixe um comentário