O que é pior, não ter ideias ou ter as erradas? Difícil, mas é certo que alguns problemas graves do Brasil se devem a equívocos ideológicos, ou seja, ideias erradas, atrasadas ou fora de lugar. Nem é preciso procurar muito. Há dois exemplos gritantes no noticiário dos últimos dias: o Brasil perdeu vendas para o rico mercado americano por causa de uma diplomacia baseada numa espécie de bronca com os EUA; o Brasil não tem aeroportos adequados porque o governo Lula considerava um crime fazer concessões à iniciativa privada.

Obama esteve aqui. Nas conversas, a presidente Dilma e outras autoridades “cobraram” o maior equilíbrio nas relações comerciais, já que o Brasil tornou-se o único país importante (e exportador) a ter déficit no comércio com os EUA. Nada menos que US$ 11,2 bilhões no ano passado, depois de uma história de superávits ainda no início deste século.

No governo Lula, havia duas explicações para esse fato. Uma negativa: colocava-se a culpa no protecionismo americano, que dificulta e/ou encarece a entrada de produtos brasileiros importantes, como suco de laranja, etanol e carnes. A explicação positiva sustentava que o Brasil havia adotado a política de diversificar exportações, de modo a não ficar dependente do mercado americano. O sucesso dessa diplomacia comercial, dizia Lula, estava no aumento das vendas para outros países, especialmente China, que se tornou nossa principal parceira.

Há aí alguns fatos, mas a combinação não faz sentido. Os EUA têm medidas protecionistas em alguns itens que afetam o Brasil. Mas são também os maiores importadores do mundo — e que continuaram comprando mesmo durante a crise, inclusive do Brasil.

Tomando o período 2003/10, as exportações brasileiras para lá aumentaram cerca de 35%. Mas, para ficar aqui ao lado, as vendas do Chile subiram quase 90%, e as do Peru, 112%. Os dois países firmaram acordos comerciais com os EUA, mesmo aceitando restrições americanas. Dirão os ideólogos da diplomacia lulista chamada Sul-Sul: eles ficaram presos na órbita americana, dependentes do império. Falso.

Exatamente como o Brasil, Chile e Peru aumentaram exponencialmente suas exportações para a China, hoje a principal parceira dos chilenos e peruanos, neste último caso empatada com os EUA. Na verdade, o que aconteceu no comércio externo de Chile e Peru foi, numa parte, o que se passou com o Brasil. A China consolidou uma expansão fortíssima, tornou-se grande importadora mundial e foi buscar produtos no mercado global. Em resumo, a diversificação não se deu por causa da diplomacia dos países latino-americanos. Foi a China que veio aqui comprar minério de ferro, soja e petróleo, assim como foi ao Chile importar cobre e ao Peru em busca de cobre, zinco e petróleo. Reparem: todos os países emergentes, sem exceção, aumentaram suas vendas para a China.

A diferença entre Brasil e os colegas latinos está no comércio com os EUA. Todos estes aumentaram mais fortemente suas vendas para o mercado americano, ao mesmo tempo em que diversificavam para a Ásia.

Mesmo com protecionismo, portanto, há meios de vender mais para os EUA. Afinal, todo o mundo faz isso. Não é possível que o governo americano tenha uma bronca especial com o Brasil ou que nós não tenhamos nada para vender lá, além de suco de laranja, etanol e carnes.

O fato é o contrário: a diplomacia lulista desprezou o mercado americano, por ideologia. O ex-chanceler, Celso Amorim, perguntado por que o Brasil não buscava acordo comercial com os EUA, como faziam outros países, disse que a “gente não queria esses acordinhos”.

Disso resultou a perda de bilhões de dólares de vendas nos EUA.Dizem que o governo Dilma será mais pragmático.

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AEROPORTOS

É o outro caso de ideias que matam. Há anos está claro que o governo não tem os recursos nem a capacidade técnico-administrativa para reformar e construir aeroportos. No PAC, a Infraero tinha pouco mais de R$ 5 bilhões para 16 aeroportos.

Uma mixaria –— e a estatal nem consegue gastar o dinheiro.

A presidente Dilma fez o óbvio. Tirou a aviação civil dos militares e anunciou que concederá aeroportos à iniciativa privada, que tem o dinheiro e a capacidade. Em conversas reservadas, no governo Lula, alguns ministros diziam isso: ou privatiza ou não teremos os aeroportos da Copa. Por que não privatiza? Lula não quer nada de privatizações.

E assim acumulamos esses prejuízos todos por nada. A prova de que se tratava de um imenso equívoco ideológico está aí: se a sucessora de Lula diz que não tem nada de mais em privatizar….

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BOLSA ESCOLA

A propósito da coluna “A bolsa é para a escola”, aqui publicada no último dia 3, recebi o seguinte comentário do senador Cristovam Buarque: “O programa México Oportunidades saiu daqui, de Brasília. Os mexicanos vieram aqui e eu enviei pessoas para lá, como consultores do Unicef, do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foi daí que nasceu, no México, tanto o Bolsa Escola, como o Poupança Escola, depósito em caderneta de poupança para o aluno retirar se e quando concluir o ensino médio. Essa duas ideias estão no livro ‘A revolução nas prioridades’, debatido a partir de 1987 e publicado em 1994 pela Paz e Terra. Ambas ideias foram implantadas no meu governo no Distrito Federal, a partir de 1995. Antes disso, estive auxiliando o grande José Roberto Magalhães, então prefeito de Campinas, que começou seu governo dois anos antes do meu. O programa de Campinas sempre esteve mais próximo do conceito de bolsa família do que bolsa escola.”

Fonte: O Globo, 24/03/2011

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