Domingo, 4 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Impasse grego

O tempo urge contra a Grécia, país de tantas tradições, filosofia milenar, berço da civilização, turismo efervescente, mas prestes a ser tornar insolvente (e até sair da Zona do Euro). Para piorar, na contramão do bom senso, o governo grego atual, numa atitude mais política do que pragmática, se coloca contrário a qualquer pacote de reformas que aprofunde ainda mais a recessão na economia. Caso o governo aceite este pacote, a crise acabará superada (mesmo que de forma transitória) e será possível ao país receber cerca de 7,2 bilhões de euros, no tranche de empréstimos, mais do que suficiente para o pagamento de parcela da dívida externa junto ao FMI (1,54 bilhão de euros), a vencer agora no dia 30/6.

Nesta corrida contra o tempo, o país enfrenta momentos turbulentos, com corridas bancárias e fuga de recursos. Em resposta a isto, o BCE já aumentou o limite de emergência, para irrigar de liquidez o sistema bancário do país. Em poucos dias, mais de 2% de depósitos nos bancos gregos já foram retirados pelos clientes, sendo que entre outubro de 2014 e abril deste ano foram mais de 30 bilhões de euros.

Façamos então uma breve análise sobre como o país chegou ao impasse atual, engolfado numa crise dolorosa de difícil prognóstico sobre seu desfecho.

Como tudo piorou – Pode-se afirmar que a ascensão do partido populista de esquerda Syriza, nas eleições de janeiro passado, foi um dos fatores detonadores para o impasse atual. Cabe salientar, no entanto, que antes a situação da Grécia já era muito delicada, com uma sucessão de governos, entre esquerda e direita, que não encontraram espaço político, nem econômico, para sair do atoleiro na qual o país se encontra. Antes do Syriza tivemos o conservador Antonis Stournaras, que também nada resolveu. Desde janeiro, com a posse do premiê Alexis Tsipras, do Syriza, tudo, no entanto, piorou. Sua retórica é combater a austeridade e os ajustes recessivos necessários e buscar mecanismos alternativos de renegociação das dívidas. O problema é que os credores que acordaram com programas de ajuste e austeridade para o país helênico, não aceitam mais esta descontinuidade de propósitos entre os governos gregos que se sucedem no poder. Com isto, o país acabou jogado no impasse atual. Sobre as medidas alternativas aventadas, o ministro da Fazenda, Varoufakis, defende um reescalonamento da dívida grega, 170 bilhões de euros, num prazo de 30 anos e condições favoráveis de amortização e juros.

Pacote de reformas – Defendido pelos credores e rejeitado pelo governo Tsipras, este pacote envolve duras medidas como o ajuste da Previdência e a elevação de impostos sobre o consumo de energia elétrica e medicamentos. No primeiro, o ajuste deve chegar a algo em torno de 1% do PIB sobre o regime previdenciário, algo em torno de 3 bilhões de euros; no segundo, fala-se na elevação de 23% na alíquota dos impostos sobre o consumo de energia elétrica. Cabe salientar que o regime previdenciário na Grécia é inchado e distorcido. Representa 16,2% do PIB, enquanto que na Alemanha não passa de 10%. Além disto, estimula aposentadorias antecipadas, na qual cidadãos podem se aposentar antes do tempo, algo impensável em países onde a expectativa de vida aumenta. Este é, aliás, o centro do debate no Brasil em torno do Fator Previdenciário, criado para reduzir a aposentadoria dos que “querem se retirar mais cedo”.

Estado atual da economia grega – A Grécia enfrenta uma depressão profunda, com 25% de retração do PIB desde 2009, taxa de desemprego acima de 24% da PEA e uma dívida pública que encosta os 170% do PIB. Com os ajustes necessários, esta situação tende a se aprofundar, daí o impasse atual com os credores e as pressões sociais da sociedade grega.

O que aconteceria se a Grécia sair da Zona do Euro? Possíveis contágios – Caso saia da Zona do Euro, nesta o contágio será mais moderado, visto que os bancos europeus já reduziram bastante suas posições junto aos gregos. Nos mercados emergentes, é possível algum transtorno no curto prazo, em especial nos mercados de moeda, crédito e dívida. O maior impactado, no entanto, seria a própria Grécia, já experimentando uma fuga de ativos, corrida bancária e total descrença de toda a sociedade sobre a solução radical de sua saída da Zona do Euro. Em pesquisas realizadas, 70% dos gregos consultados preferem continuar na Zona do Euro, mesmo com ressalvas sobre a necessidade de manter um programa de ajustes pesado.

Sobre o contágio no Brasil, país com ativos de alta liquidez, o real poderia sofrer forte depreciação num primeiro momento, mas esta seria transitória, num espaço limitado de tempo. O país passaria a pagar juros mais altos no mercado e aumentaria a aversão dos investidores ao risco. Além disso, como a Europa é um grande parceiro comercial do Brasil, as exportações para a região acabariam afetadas.

Mas será que o país helênico sai da Zona do Euro? Sobre isto, não parece haver consenso. Muitos acham que no fim o país e a Comunidade Europeia acabarão encontrando uma saída e chegando a um acordo. Outros até consideram um calote, mas no fim o país ainda continuaria no bloco. Neste caso, acham que a saída teria repercussão muito negativa, “espalhando o caos na Grécia e em outros países”. Daí a necessidade de se manter no bloco, apesar dos pesares. Sobre isto, comenta-se até no surgimento de uma moeda paralela, o que não é muito bem aceito pelo BCE. Enfim, o debate continua em aberto.

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