Quando a sociedade acorda de seu mutismo político, algo de importante acontece. De certa forma, foi assim com a CPMF. Sem a mobilização de setores organizados, a contribuição teria sido prorrogada.

No caso do reajuste dos aposentados, a mesma coisa. Sem mobilização, o reajuste seria aquele proposto pelo governo (6,14%), e não o que foi aprovado pela Câmara (7,72%). Outro exemplo é o projeto Ficha Limpa.

Desde o início, o projeto traz a marca da mobilização da sociedade. Foi apresentado com o apoio de mais de um milhão de assinaturas.

O texto original foi proposto pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e recebeu apoio de entidades como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Evidente que a derrota da CPMF deve ser creditada a vários fatores. Entre eles, a divisão da base aliada e o não cumprimento de promessas de apoio feitas ao governo.

Uma pilotagem mais segura teria impedido a derrota por poucos votos. Eram necessários 49 votos no Senado, e a proposta de emenda constitucional teve 45.

No caso do reajuste dos aposentados, além da mobilização, o fator eleitoral contribuiu para fragilizar a adesão da base governista e inflamar os ânimos da oposição. No caso do Ficha Limpa, o que ajudou também foi o sentimento de culpa de muitos com a imagem do mundo político.

Alguém poderia argumentar que a mobilização não teria sido o fator decisivo para o resultado. Não é verdade. Sem ela, a política fica isolada da sociedade e vira diálogo exclusivo entre players políticos, cujos interesses podem não ser os da sociedade.

O mesmo vale para a imprensa. Sem uma imprensa livre, a democracia não se realiza. Assim, é mais do que oportuna a promoção de encontros e debates, como os ocorridos no Rio e em Brasília na semana passada por conta do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Em especial, em um continente onde a liberdade é bem escasso.

De acordo com relatório da organização Repórteres Sem Fronteira, na América Latina as quatro maiores fontes de ameaça e violência contra jornalistas continuam sendo os traficantes de drogas, a ditadura em Cuba, as Farc e grupos paramilitares.

No Brasil, graças a Deus, não temos tais ameaças. No entanto, temos outras: o precário índice de leitura; as tiragens raquíticas frente ao tamanho da população e, ainda, o domínio que a publicidade do governo exerce sobre muitos setores da mídia.

Além da precariedade do ensino e da falta de poder aquisitivo, faltam bibliotecas. O Ministério da Cultura divulgou em abril um censo sobre as bibliotecas públicas municipais em todo o Brasil. O estudo foi realizado em 2009 pela FGV, e constatou que 21% dos municípios não têm o serviço. A pesquisa revela ainda que 71% das bibliotecas municipais do país não disponibilizam acesso à internet.

A qualidade do futuro da política no Brasil reside nos dois aspectos mencionados aqui: a mobilização da sociedade e o pleno exercício da liberdade de expressão.

Temas que devem ser objeto de nossa reflexão e ação diárias. A começar pela educação e pelo acesso à informação escrita, fator fundamental para o sucesso do Brasil.

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