Carlos Alberto Di Franco

O governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Justiça de Lula, Tarso Genro, manifestou desconforto com o trabalho da imprensa. Na contramão do discurso da presidente Dilma Rousseff, defensora dos jornais, “mesmo quando são irritantes, mesmo quando nos afetam, mesmo quando nos atingem”, o governador gaúcho vislumbra riscos para a democracia subjacentes ao empenho investigativo dos jornais.

Em artigo na Folha de S. Paulo, Tarso Genro aponta o perigo representado pela imprensa: “É visível que existe, em grande parte da mídia, também uma campanha contra a política e os políticos, o que, no fundo, é, independentemente do objetivo de alguns jornalistas, também uma campanha contra a democracia”.

O comentário do governador, em sintonia com a linha mais autoritária de seu partido, o PT, é injusto e infeliz. Não é o jornalismo investigativo que conspira contra a democracia. É a corrupção endêmica e impune. É o pragmatismo aético. É a “governabilidade” que justifica alianças que fariam corar até mesmo representantes de facções.

O fisiologismo político é responsável por alianças que são monumentos erguidos à incoerência e ao cinismo. Quando víamos Lula, José Sarney, Fernando Collor e Renan Calheiros, só para citar exemplos mais vistosos, abraçados e congraçados, no mesmo palanque, pairava no ar a pergunta óbvia: o que une firmemente aqueles que estiveram em campos tão opostos? A “governabilidade”, dirão alguns. Na verdade, interesse. Só interesse. Os fisiologistas têm carta-branca para gozar as benesses do poder. Os ideológicos, cúmplices ou lenientes com o apetite dos fisiológicos, recebem deles o passaporte parlamentar para avançar no seu projeto de poder.

Tarso escolheu um momento ruim para investir contra a imprensa, pois recentemente se tornou público um vídeo em que a deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF) aparece recebendo um maço de dinheiro das mãos do delator do mensalão do DEM, Durval Barbosa.

Barbosa, recorda o jornalista Fernão Mesquita, “é o pivô do “mensalão do DEM”, aquele no qual tombou sob o fogo das lentes indiscretas da Polícia Federal lulista o governador José Roberto Arruda, em manobra arquitetada para mostrar que isto de “mensalões” não é exclusividade do PT e, assim, animar as “excelências” a aprovar, em unanimidade suprapartidária, uma saída de emergência para “mensaleiros” pegos em flagrante escaparem da cassação”.

Foi rigorosamente o que aconteceu. A nova legislação é uma bofetada na cidadania. Diz pura e simplesmente: quem roubar em cargo público só pode ser punido por malfeito flagrado no mandato em exercício. Ficam impunes as roubalheiras praticadas em mandatos anteriores.

Não foi a primeira vez que Jaqueline Roriz esteve envolvida em escândalos. Há precedentes. Suas impressões digitais apareceram em achados da Polícia Federal já em 2006. Mas o que salta à vista de qualquer praticante de empenhos investigativos, sublinha Fernão Mesquita, é que a deputada Jaqueline Roriz “possivelmente não seria eleita em 2010 para o cargo que lhe garante a impunidade de seus crimes anteriores se o filme que a mostra praticando um deles em 2006, desde então dormindo nas gavetas da Polícia Federal lulista à espera de um momento conveniente, tivesse sido divulgado antes” (www.vespeiro.com). É isso que cabe à imprensa. Mostrar o que sonegam. Desnudar o verdadeiro substrato dessa sucessão interminável de escândalos.

É um erro, um grave equívoco, minimizar a gravidade da corrupção. O Brasil está bombando. O desenvolvimento absolve todos os pecados. O crescimento da economia é uma viseira que impede um olhar mais profundo sobre o País que queremos construir. O custo humano e social da corrupção é assustador. A dinheirama que desaparece no ralo da corrupção é uma tremenda injustiça e um câncer que, aos poucos e insidiosamente, vai minando a República.

A corrupção, independentemente do seu colorido partidário, precisa ser duramente combatida. É ela que empurra a juventude desempregada para o consumo e o tráfico de drogas. É ela que abandona os idosos que são maltratados nas filas de uma saúde pública de baixíssimo nível. Saúde para todos. Maravilha. Mas que tipo de saúde? Educação para todos. Formidável. Mas que tipo de educação? O Brasil é VIP na economia, mas é o único entre os emergentes sem universidades top de linha. É o que mostra o novo ranking divulgado pela Times Higher Education (THE), a principal referência no campo das avaliações de universidades no mundo.

A um projeto autoritário de poder o que menos interessa é gente educada, gente que pense criticamente. Multiplicam-se universidades, mas não se formam cidadãos: homens e mulheres livres, bem formados, capazes de desenvolver seu próprio pensamento, conscientes de seus direitos e de seus deveres.

O Brasil pode morrer na praia de uma economia florescente, mas sem um projeto sério de educação. Só a educação de qualidade será capaz de preparar o Brasil para o grande salto. Deixarmos de ser um país exportador de commodities para entrar, efetivamente, no campo da produção de bens industrializados.

Para isso, no entanto, é preciso o acicate de uma imprensa independente e que vá além dos episódios pontuais. Uma imprensa desmistificadora de relatórios oficiais. Um jornalismo capaz de fazer a correta leitura de números, estatísticas e documentos. Impõe-se a prática de um jornalismo que não se vista com as lantejoulas do último escândalo denunciado, mas que saiba o que está no fundo da impunidade.

O governador Tarso Genro está equivocado. A imprensa não ameaça a democracia. O que, de fato, compromete a democracia é a banda podre da política brasileira.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 21/03/2011

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