Por Miguel Paiva

Tentar olhar o Brasil de fora é uma experiência espantosa. Durante recente período em Lisboa passei por esta experiência abrindo O Globo Online todos os dias. Parecia estar lendo uma comédia política, daquelas escritas por Marcos Caruso ou Juca de Oliveira, em que, por força do formato, toda uma vida de escândalos, falcatruas, falta de vergonha, impunidade, desfaçatez e descaso é resumida em hora e meia de espetáculo.

Leio sem achar a menor graça, como acontece no teatro, as notícias do nosso cotidiano político. Como cidadão, também me sinto duplamente desrespeitado. Pago meus impostos a duras penas, e ai de mim se não pagá-los! Somos sempre o elo mais fraco da história. Não quero ser privilegiado por isenções ou artimanhas para escapar dos impostos. É verdade que queria pagar menos, mas queria que todos pagassem , inclusive os políticos.

Para cada contrato novo ou renovado tenho que apresentar uma certidão negativa da Receita Federal. Se houver algum imposto atrasado ou parcelamento não pago, a dificuldade de se conseguir a certidão é enorme. Não acho errado, estamos sendo tratados como todos deveriam ser.

Esse controle, essa rigidez fiscalizadora, deveria ser igual para todos – afinal, é assim que nós, eleitores, deveríamos tratar os políticos que elegemos. Nós os colocamos lá, numa espécie de concessão por um período limitado para que nos representem. Deveríamos ter um instrumento de controle com a mesma eficiência que a Procuradoria da Receita tem em nos fiscalizar: não cumpriu o que prometeu, não tem a certidão negativa do eleitor, vai ter que correr atrás, tirar o atraso, pagar o que é devido. Como eleitores, temos um nome a zelar.

Fico admirado com a tranqüilidade com que os políticos investigados lidam com suas declarações de renda, suas riquezas quase nunca justificadas, suas empresas fantasmas, seus lobbies, suas ligações obscuras e negociações duvidosas. Fico fascinado também com a enorme capacidade de compra de seus salários. Não consigo com o que ganho a mesma magia. Da minha cartola não sai coelho. Para o comum mortal com uma certa condição, como eu, se não estiver com tudo explicado e em dia, não dá para se fazer nada, a não ser que se decida pela sonegação.

Olhando o Brasil de fora parece que se perde a passividade entorpecente que vamos adquirindo olhando o país de dentro diante da monotonia das mesmas notícias. Voltamos a nos indignar, e, curiosamente, estando em Portugal, berço da nossa terra, sentimos que o desvio que pegamos pode ser só em parte herança genética, mas é no todo absolutamente genuíno, criativo e nocivo. Estamos nos especializando no desrespeito à lei como disciplina diária. Tudo o que existe pode e deve ser transgredido. O crime compensa e não pune. A campanha que O GLOBO vem fazendo denunciando a impunidade é uma obrigação de todos nós, mesmo que nos tornemos chatos e repetitivos. Se não mudarmos essa história, vamos nos dar mal. Um país não vive impunemente tanto tempo à base de tamanha impunidade. Daqui a pouco nossos valores estarão invertidos e não consideraremos mais o que é certo ou errado e, sim, o que é possível ou impossível.

(Publicado em O Globo, em 09 de julho de 2007)

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