Inception Brasil: Constituição Tiririca, a origem

Inception é o titulo do excelente filme de Christopher Nolan – “A Origem”. Do latim incipere, significa princípio, o momento da inserção de algo. O autor conhece profundamente os níveis mentais onde se travam as batalhas reais, individuais ou coletivas, entre ficção e realidade. Classificado como ficção, o filme é uma parábola sobre a natureza humana e sua capacidade de, ela sim, produzir ficções na vida real. É sobre sonhar e viver o irreal, sobre cobiça e roubo de sonhos, inocular ideias em si e nos outros, sobre perdas reais de tempo, de rumo e de vida; sobre a origem e as consequências das inceptions.

As ideologias políticas do século passado foram inceptions exemplares desse tempo. A Constituição Brasileira é subproduto retardatário delas, um sonho dentro de outro, e origem dos pesadelos políticos e econômicos do País. Agora mesmo estamos revivendo na televisão as excentricidades de um dos pesadelos – as eleições, o lado mais visível da origem e do princípio, a Constituição tiririca – uma erva daninha e também o nome do candidato símbolo deste sistema político. Tiririca gera tiriricas.
No filme de Nolan, o marido Cobb inseriu ideias fictícias em Mal, a esposa, levando-a por isso ao suicídio real. Os políticos fazem o mesmo com a sociedade através de leis e campanhas eleitorais.

Na lógica do filme, para perceber que o sonho acabou as pessoas precisam morrer (no sonho) ou levar um chute real na canela. No Brasil sem lógica, os políticos não se permitem morrer em seus sonhos nem percebem os chutes que levam na canela. E não acordam.

Para saber se estão acordadas ou sonhando, as pessoas (no filme) precisam olhar para um objeto real, um totem. Aqui, os políticos criam totens virtuais para adorar e se deitar eternamente, e sonhar – a pétrea Constituição Cidadã do Dr. Ulisses é o principal. E sempre ronda o suicídio.

Como sonho, a Carta brasileira tem o mérito de ter sido legítima. Porém, imprópria para o país e para estes tempos. Sua origem é apenas a velha relação cobiçosa entre Arena e MDB – a débil democracia e o velho corporativismo – que celebraram um pacto de interesses e, na celebração, conceberam a idéia da primeira inception: uma Assembléia Constituinte não exclusiva. E nasceu a mimada fille du dimanche.

A Constituição de 1988 não é fruto de uma relação sóbria e honesta, como seria a de uma Assembleia exclusiva. Não houve independência nem reflexão estratégica capaz de estabelecer um pensamento nacional. Prevaleceram interesses subalternos que dirigiram questões de fundo, dentre elas a modernização do Estado – que não ocorreu. Fizeram coisas simplórias, um lado capitulou no aspecto da democratização e outro no da manutenção de vantagens, o que de algum modo interessava a ambos. Não fez melhor do que já havia – consolidou direitos e miudezas corporativas, e expurgou fragmentos estranhos à democracia. Mas inseriu ou manteve outros, estranhos à economia e à razão política. Assim, constituiu-se num pequeno e rudimentar sonho, mas se fez totem virtual, inception a ser inoculada na sociedade.

Derivaram dela dois grandes pesadelos: o sistema econômico e o sistema político, meros arranjos internos do sonho, o que no filme leva ao limbo ou ao suicídio real. Copiaram modelos de estado e sistemas econômicos velhos, e desde então o País está superado, como ficou claro logo no ano seguinte, em 1989, no despertar da Europa oriental, quando o mundo também percebeu que o sonho acabou. Mas não copiaram o que deveriam ter copiado – os sistemas políticos. Nisto, meramente costuraram retalhos velhos a antigos panos novos, entregando ao país uma roupa feia, caipira e que rasga fácil, porque neste caso “a costura não fixa” (Lucas 5:36).

Keynes não precisou ver o filme de Nolan para expressar nossa atual urgência de encontrar um caminho institucional rápido para sair destas ficções e despertar – “no longo prazo todos estaremos mortos”. É necessário perceber os chutes na canela, enxergar a realidade e absorver as regras novas da relação com o mundo globalizado. Internamente, amadurecer e “desmilitarizar as mentes” – na expressão do filme –, abandonar os bunkers ideológicos, inceptions construídas sobre vaidades intelectuais e impulsos justiceiros, todos equivocados. Despertar os nossos poucos kachigumi de seus pesadelos crônicos de luta de classes, e lhes contar que esta guerra, assim como a Segunda Guerra Mundial, também já acabou. E não há perdedores nem ganhadores.

No lado econômico, o mandamento real e inevitável é uma nova governança entre estado e mercado – o doméstico e o global cada vez mais sem distinção. Avançar para os padrões globais da superdemocracy e da prevalência de liberdades econômicas – tributária, trabalhista, financeira e a desburocratização. Livrar o país dos velhos interesses menores ou corporativos. Despertos como o Chile, separar imediatamente economia e política. Fazer o que não fez a Argentina nos últimos vinte anos – e por isso o limbo.

No lado político, realidades nos chutam as canelas há tanto tempo que é incompreensível seguir dormindo quanto à proporcionalidade racional no Parlamento, o voto distrital e facultativo, e uma lei eleitoral realista. Já é insuportável o pesadelo de uma eleição como a que está em cartaz no rádio e na televisão.

Necessário agir rápido, durante e também depois deste jogo eleitoral lúdico, mas logo, para evitar o limbo ou o suicídio de Mal, a sociedade. Despertar para a realidade é convergir para o ponto óbvio: o sistema político e seus personagens têm que morrer neste pesadelo que inocularam na sociedade.

O fim urgente das inceptions brasileiras – as ficções econômicas e políticas – deveria ser a ocupação do futuro presidente a partir da campanha. Verdade e realidade são as portas do caminho que o País precisa trilhar, com abandono das mentiras e dos sonhos próprios de uma demorada adolescência civilizatória.

A realidade possível – um Brasil maduro e moderno – será pelo menos melhor que este pesadelo exótico do horário eleitoral gratuito, tão pueril quanto seu perfeito símbolo: inception Tiririca, produzido pela inception original, a Constituição tiririca.

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