Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
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Indústria brasileira

O desempenho da indústria no primeiro semestre de 2015 foi assustador, com queda de 6,3% na produção, em relação ao mesmo período de 2014. Os problemas da indústria, porém, não são recentes: em 2014, ela produziu 0,7% menos do que em 2008 e em maio deste ano ela empregava 7,6% menos gente do que 10 anos antes.

Retroagindo mais no tempo, vemos que o mau momento da indústria, em termos absolutos e relativamente ao resto da economia, começou bem antes. Em estudo que Regis Bonelli e eu estamos desenvolvendo, constatamos que todo o ganho de participação da indústria de transformação no PIB ocorrido desde meados da década de 1940 – quando o processo de industrialização via substituição de importações tornou-se efetivamente uma política pública – até o início dos anos 1980 foi revertido. O saldo líquido é que, pelas nossas estimativas, o peso da indústria de transformação no PIB em 2014 foi menor do que em 1947, quando começam as séries das Contas Nacionais.

Não há uma explicação única para essa queda. Entre os fatores que contribuíram para ela está o fato de a industrialização, por assim dizer, ter ido “longe demais”. Assim, a última fase do processo de substituição de importações dependeu de políticas cada vez mais ineficientes, que beneficiavam certos setores à custa do desempenho econômico como um todo. A Lei de Informática é um bom exemplo. O resultado é que se estabeleceu no país uma indústria diversificada, mas com baixa competitividade, incapaz de sobreviver quando a crise da dívida impediu que o governo continuasse a subsidiá-la. Quando essas políticas foram descontinuadas e, em especial, se reduziu a proteção tarifária e não tarifária, os segmentos menos competitivos se retraíram.

Um aspecto interessante desse processo é que o aumento e posterior queda da participação da indústria no PIB é mais pronunciado em valores correntes do que a preços constantes. Assim, no primeiro caso ela subiu de 10,9% em 1947 para 21,5% em 1985 e depois caiu a 10,9% em 2014. A preços de 2010, os valores são 14,4% em 1947, 21,0% em 1980 e 13,8% em 2014. Isso reflete o fato de que a política de substituição de importações elevou o preço relativo dos bens industriais, para compensar a baixa competitividade, e quando se abriu a economia esse preço relativo caiu.

Apesar de ter sofrido com o difícil quadro macroeconômico do período 1981-93 – altíssima inflação, queda do PIB per capita, vários choques heterodoxos – e a pressão competitiva vinda da abertura comercial, que nem foi assim tão radical, a indústria foi capaz de aumentar a produtividade e tornar-se mais competitiva nesse período. Assim, a forte alta na penetração das importações de manufaturados observada desde meados dos anos 1980 – quando atingiram um valor absurdamente baixo — não impediu que o coeficiente de exportações também subisse bastante.

Atualizando o exercício para o Brasil até 2014 fica ainda mais claro que nosso grande problema é a queda da produtividade

A crescente inserção da indústria brasileira na economia global, via importações e exportações, prosseguiu de forma relativamente saudável até meados da década passada. Assim, em 2004, todos os setores da indústria de transformação apresentaram coeficientes de exportação bem mais altos do que em 1996, o mesmo não ocorrendo, porém, com a penetração das importações, em que o quadro é setorialmente mais heterogêneo. Já no período 2006-13, o inverso aconteceu.

Nós associamos o fraco desempenho da indústria neste período mais recente ao comportamento relativo do custo unitário do trabalho (CUT) nesse setor, no Brasil e em países com os quais concorremos. Utilizando dados para 20 países em 1995-2011, vemos que no Brasil o CUT, em dólares constantes, aumentou 7,1% ao ano, enquanto nos demais países esse caiu ou ficou relativamente estável. Nos destacamos em relação aos três componentes considerados do CUT: tivemos uma apreciação cambial superior à dos demais países; uma alta do rendimento real do trabalho também mais pronunciada, com exceção da China; e, ao contrário dos demais países, uma queda da produtividade do trabalho.

Atualizando o exercício para o Brasil até 2014 fica ainda mais claro que nosso grande problema é a queda da produtividade. Assim, em 1995-2014 o rendimento real na indústria de transformação subiu 2,8% ao ano, a taxa de câmbio efetiva real desvalorizou 1,3% ao ano e a produtividade teve uma queda média anual de 0,9%. O resultado foi que o CUT da indústria de transformação, em termos reais e medido com base em uma cesta de moedas, aumentou 2,5% ao ano.

A desvalorização cambial adicional observada este ano e a queda do salário real no biênio 2015-16 devem reduzir o CUT da indústria, promover as suas exportações e reduzir o coeficiente de penetração das importações. Mas a comparação com outros países deixa claro que nosso problema não está nessas variáveis, mas no péssimo desempenho da produtividade. Políticas que limitam a competição e protegem a ineficiência, como as adotadas nos últimos anos, não vão ajudar em nada a mudar esse quadro.

Fonte: Valor Econômico, 7/8/2015

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