A tônica do governo Dilma será a inflação. Basicamente, o que for feito para controlá-la agora garantirá ou não um bom resultado para os próximos quatro anos. O problema é que velhos erros do passado persistem ainda neste início de mandato.

Para analisar essas divergências, vale separar a análise da inflação em três pontos: reconhecimento, diagnóstico e instrumentos.

O governo reconhece que existe um problema inflacionário. Isso é importante porque o período hiperinflacionário dos anos 1980 e 1990 fez com que todos os governos desde então elegessem a inflação como o vilão maior a ser combatido.

Nem sempre foi assim, bastando lembrar que Juscelino Kubitschek e os governos Médici e Geisel ignoraram solenemente o problema. Nesse sentido, a presidente Dilma tem focado suas entrevistas e discursos em reconhecer a inflação como elemento central de controle.

Entretanto, o reconhecimento não basta, pois depende de um diagnóstico bem feito das causas dessa inflação. Em entrevista recente a presidente reconheceu que existe um processo inflacionário a caminho, mas o diagnosticou de forma no mínimo estranha.

No mundo do governo a inflação não é de demanda, se dá essencialmente por variação no preço das commodities e o salário mínimo não deverá ser um estimulado de demanda relevante. Essa visão é compartilhada pelo Ministério da Fazenda e implicitamente pelo Banco Central.

Apesar deste último reconhecer os descompassos entre oferta e demanda, também dá um peso excessivo aos preços de commodities como causa inflacionária. O problema é que o diagnóstico nos parece equivocado, pois parece claro a todos os analistas que o relevante neste caso é a demanda.

Mais ainda, não basta desacelerar este ano e voltar ao ritmo normal de expansão da economia em 2012, como parece ser desejo expresso do governo.

Mas se o diagnóstico é distorcido, os instrumentos de combate também o são. Como não se acredita com firmeza numa demanda como causa da inflação, as políticas fiscal e monetária perdem a necessidade de serem utilizadas de forma adequada.

Por isso, um ajuste fiscal envergonhado e um magro aumento de juros deverão ser considerados suficientes no momento.

Vale dizer que o governo está sendo coerente em sua política e muito semelhante à visão dos últimos anos do governo Lula. Essa corrente acredita em aumento de capacidade produtiva via investimento que levaria a demanda a deixar de ser um problema.

Há três anos esse discurso começou e há três anos a inflação toca perigosamente na casa dos 6%, com exceção do ano de crise que foi 2009. O problema é que investimento antes de virar oferta é demanda e talvez não esteja ocorrendo nas áreas que de fato poderia diminuir o descompasso entre oferta e demanda.

Em outras palavras, o excesso de investimento em commodities deixa os grandes números robustos, mas não resolve a situação da capacidade produtiva.

Parece que o atual governo optou pela desgastada fórmula de um pouquinho de inflação não ser prejudicial para o crescimento. Será a economia do IPCA a 6%, com todos os riscos de reindexação que isso pode trazer.

Fonte: Brasil Econômico, 28/03/2011

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