A inflação voltará à normalidade em 2018

Sem grandes choques, a inflação tende a voltar a um patamar mais próximo da meta

Há uma onda de boas novas na economia nos últimos meses e uma delas tem sido a inflação. Não seria possível, prever, entretanto, que os números estariam tão favoráveis como estão agora. Em setembro, o IPCA deve bater na casa dos 2,4% em 12 meses, não alcançando o recorde de baixa de janeiro de 99, de 1,65%.

A comparação com o final do século passado é interessante para dar uma ideia sobre a sustentabilidade de taxas tão baixas neste momento. Àquela altura, havia uma recessão e um câmbio real fortemente apreciado que jogavam a inflação para baixo. Com a quebra do regime cambial justamente em janeiro de 99, a inflação voltou a se acelerar e fechou na média anual de 7,5% entre 99 e 2001.

Não temos nenhuma quebra de regime cambial pela frente, obviamente, o que nos tranquiliza, de certa forma, sobre o cenário inflacionário a médio prazo. A única coisa que poderia desmontar a projeção benigna da inflação é um descontrole fiscal que não está no cenário — tanto pelo novo regime da regra do teto quanto pela possibilidade cada vez mais provável de entendimento sobre a necessidade da reforma da previdência, seja agora ou em 2019.

Sem grandes choques, a inflação tenderia a voltar a um patamar mais próximo da meta dado o controle de expectativas que o BC tem imprimido desde o ano passado. A aceleração da inflação para a meta se daria por duas razões.

Primeiro, o grande choque positivo da inflação de alimentos é algo atípico. A produção agrícola certamente não terá a supersafra vista neste ano. Mas mesmo com produção menor ano que vem ainda assim haverá um elevado estoque de passagem que segura aumentos de preços preocupantes ano que vem.

No máximo, a inflação de alimentos poderia ir para algo como a metade vista nos últimos 10 anos, algo como 4 a 5%. O clima será um elemento central nessa tendência. Ainda não está claro se haverá ou não La Niña, mas essa possibilidade tem aumentado. Se for o caso, o esfriamento do Pacífico levará a períodos maiores de seca na Argentina e no Sul do Brasil, abrindo a possibilidade de safras menores nessas regiões.

Em segundo lugar, a recessão está dando espaço para uma recuperação, mas que ainda não significa retomada da plena capacidade de pré-crise. Mas os sinais são de uma recuperação mais significativa no ano que vem. A trajetória esperada indica que, se o crescimento mantiver a trajetória percebida desde o ano passado, a economia poderá bater em mais de 5% de crescimento no último trimestre do ano que vem (gráfico 1).

Para dar 3% a economia terá que começar a desacelerar o processo de expansão ao longo de 2018. Se o cenário eleitoral ajudar, essa trajetória positiva colocará um elemento de aceleração para a inflação de 2019, em que pese 2018 ainda estar sob controle.

Screenshot (7)

Esses elementos me levam a crer que não apenas a inflação voltará a certa normalidade ano que vem, mas também que os juros terão de ser corrigidos em algum momento, talvez antes do que se imaginava. A preocupação do BC no ano que vem será com a inflação de 2019, que terá meta menor (4,25%), com uma economia em crescimento mais acelerado do que se imaginava.

A consolidação de inflação e juros mais baixos só virá depois da consolidação efetiva do ajuste fiscal através da reforma da previdência e da reforma da regra do teto, trabalho para depois das eleições. Por falar em eleição, o governo terá um outro presente ano que vem que é ver a massa real de renda voltar aos picos atingidos em 2014 quando a eleição estiver se aproximando. Um elemento nessa ajuda é a inflação baixa que ajuda na contabilidade do crescimento da renda real.

Nada disso deve ser visto como preocupante. Afinal, os 2,4% é que vieram fora de hora. A continuidade do trabalho que tem sido feito pelo governo é que garantirá que talvez, no final da próxima década, essa taxa seja algo sustentável. Por hora, foi apenas uma conjunção astral muito favorável.

Fonte: “Exame”

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